UNIVERSIDADE GAMA FILHO

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA


A CONSISTÊNCIA ENTRE AS ATITUDES
E AS INTENÇÕES DOS INTERNAUTAS
EM RELAÇÃO À APROVAÇÃO DA TERAPIA
ONLINE NO BRASIL


Por
Rodrigo Sá Vicente Marot


Orientadora: Profª Drª Maria Cristina Ferreira


Rio de Janeiro
Agosto - 2003

 

Resumo
Abstract
Introdução
O Conceito de Atitude
Formação das Atitudes
Funções das Atitudes
Teoria da Ação Racional
Medida da Atitude
A Consistência da Atitude
O Indivíduo e a Internet
Internet para Pesquisa
Pesquisa em Psicologia por meio da Internet
A Psicoterapia Online
Pesquisa sobre a Psicoterapia Online
Objetivos
Hipóteses
Variáveis
Método
Resultados
Discussão
Conclusões
Referências

 

RESUMO Voltar
Apoiando-se da teoria da ação racional como referencial, o presente trabalho procurou investigar a congruência entre as atitudes das pessoas a respeito da terapia online e a intenção de aprovar a regulamentação dessa forma de terapia. Participaram do estudo 161 pessoas de ambos os sexos, com idade média de 31,4 anos, sendo que a maioria era constituída por leigos na área de sáude mental. A coleta de dados foi realizada em um site na Internet dedicado à saúde mental, através de um questionário construído de acordo com os parâmetros estabelecidos pela teoria da ação racional. Os resultados obtidos evidenciaram que as crenças comportamentais foram a principal determinante das atitudes, enquanto as crenças normativas foram a variável que exerceu maior influência na norma subjetiva associada à terapia online. Foi verificado, ainda, que tanto a atitude quanto a norma subjetiva contribuíram para a predição da intenção de aprovar a regulamentação da terapia online, embora a atitude tivesse exercido maior peso nessa predição. Tais resultados são discutidos à luz de achados anteriores que também convergem no sentido de validar os principais pressupostos da teoria da ação racional. À guisa de conclusão, são comentadas as possibilidades futuras de utilização da Internet como ferramenta de pesquisa psicológica.


ABSTRACT Voltar
Using the theory of reasoned action as a reference, this work tried to investigate the consistency between people attitudes with respect to online therapy and the intention to approve the regulations for this kind of therapy. This study involved 161 male and female participants aging 31.4 years in average, the majority being outsiders of the mental health area. The data has been collected through an Internet site dedicated to mental health, by using a questionnaire which was built following the parameters established by the theory of reasoned action. The results thereof made it evident that the behavioral beliefs were the major determinant for the attitudes, while the normative beliefs were the variant which most influenced the subjective norm associated to online therapy. It was also found out that both the attitude and the subjective norm have largely contributed to predict that there is an intention to approve the regulations for the online therapy, although the attitude has had a greater weight on this forecast. These results are discussed in light of previous findings which are also convergent towards the validation of the theory of reasoned action main assumptions. As a conclusion, the future possibilities of using the Internet as a psychology research tool are also commented.

INTRODUÇÃO Voltar
Nas últimas décadas, as tecnologias de comunicação sofreram um grande avanço. Inicialmente, o telefone permitiu, pela primeira vez, a comunicação à distância. Posteriormente, outros aparelhos, como o rádio e a televisão, introduziram a possibilidade de transmissão de sons e imagens sem fio. Em seguida, novidades associadas a melhorias nos sistemas de comunicação já existentes, como a TV colorida, a transmissão via satélite e a digitalização da transmissão do rádio e da televisão, passaram a fazer parte do cotidiano. Mais recentemente, surge no cenário mundial uma forma de comunicação até então inédita, qual seja a comunicação entre computadores, viabilizada através da Internet.
Enquanto o telefone une apenas duas pessoas, de forma bidirecional (ambas recebem e enviam), e o rádio e a TV unem uma pessoa a milhões de outras, unidirecionalmente (a pessoa transmite a mensagem a milhões de pessoas mas não recebe nenhum tipo de resposta das mesmas), a Internet permite que uma pessoa transmita uma mensagem para milhares ou milhões de pessoas e receba, de cada uma delas, uma resposta imediata. Além disso, ela permite, também, a conexão simultânea a várias pessoas, em diferentes partes do mundo, por meio de chats, ICQ ou videoconferências.
Na esteira dessas inovações e transformações tecnológicas, a discussão a respeito da psicoterapia online tem ganhado cada vez mais destaque. Psicoterapia significa o tratamento pela palavra, pela mensagem, independentemente do meio pelo qual a mensagem é veiculada. A vantagem da presença do paciente diante de seu terapeuta está na possibilidade de observação da linguagem não verbal. Contudo, até mesmo esse aspecto tem solução através da videoconferência, já que ela possibilita tanto o contato visual como o envio e recebimento da linguagem verbal e não verbal. Tal solução tecnológica, de relativamente baixo custo, constituiu o ponto de partida de discussões a respeito da viabilidade e pertinência da realização de psicoterapia pela Internet.
No entanto, a psicoterapia consiste em um procedimento de grande responsabilidade, em virtude de incidir diretamente sobre o bem estar individual. Nesse sentido, antes que estas novas modalidades de psicoterapia se tornem uma realidade, faz-se necessário que elas sejam objeto de estudos e investigações conduzidas com todo o rigor científico, de modo a permitir a análise em profundidade dos inúmeros fatores que se encontram imbricados na adoção de tais práticas. Uma via inicial de abordagem a tal temática pode ser o estudo das crenças, atitudes e intenções associadas à aprovação da psicoterapia online, na medida em que o conhecimento desses fenômenos poderá trazer subsídios valiosos às futuras discussões acerca da viabilidade dessa forma de psicoterapia. Adicionalmente, a realização de uma investigação dessa natureza, usando a Internet como ferramenta de coleta de dados, poderá contribuir, também, para o aprofundamento do debate acerca da pertinência de se realizarem pesquisas online. Por fim, a pesquisa do tema referido poderá servir para a ampliação da discussão sobre a questão da consistência entre atitude e comportamento.
Em face dessas considerações, a presente dissertação teve como principal objetivo a análise da consistência entre crenças, atitudes e intenções associadas à aprovação da psicoterapia online, utilizando a teoria da ação racional de Fishbein e Ajzen (1975) como referencial teórico. Para atender a tal finalidade, ela encontra-se estruturada em uma primeira parte, na qual são revisados os principais fundamentos teórico-empiricos subjacentes ao estudo das atitudes - com destaque para aqueles orientados pela teoria da ação racional - e da realização de psicoterapia online. Tais pressupostos são, em seguida, retomados e articulados, derivando-se daí a problemática, assim como as hipóteses que nortearam a investigação. Na segunda parte da dissertação, são apresentados, sucessivamente, o método de coleta de dados adotado nas duas diferentes fases da investigação, os resultados obtidos e as principais interpretações por eles suscitadas. À guisa de conclusão, discutem-se as principais implicações desses resultados, no que tange à prática futura de pesquisas e práticas psicoterápicas via Internet.


I. AS ATITUDES
1.1. O Conceito de Atitude Voltar
O termo atitude foi introduzido na literatura psicológica por Thomas e Znaniecki, em 1918, para explicar as diferenças de comportamento observadas entre fazendeiros poloneses e norte americanos (Stahlberg & Frey, 1995). A partir de então, tal constructo passou a centralizar as atenções dos psicólogos, a ponto de ser considerado por Allport, em 1935, como um dos mais indispensáveis à Psicologia Social (Lima, 1990), além de ter suscitado uma grande quantidade de publicações, nos diversos periódicos especializados: Montmollin, entre 1970 e 1979, encontrou mais de 20.000 publicações que apresentavam no título o termo atitude e Rajechi, já na década de 80, somente entre 1983 e 1988, encontrou mais de 14.000 títulos, usando o mesmo critério (Alexandre, 1996). Mais recentemente, embora as atitudes tenham saído do foco principal das atenções dos psicólogos sociais, elas, ainda assim, continuam sendo um importante tema de estudo.
Face ao destaque que o constructo recebeu, inúmeras foram as definições oferecidas para ele, ao longo do século XX. Thurstone (1946, citado por Brigham, 1991), por exemplo, considerou a atitude como a intensidade de afeto positivo ou negativo dirigido a um objeto psicológico. Aproximadamente na mesma época, Doob e Lott (1947, citado por Fishbein & Ajzen, 1975) conceitualizaram a atitude como uma resposta avaliativa em relação a um objeto. Rodrigues (1996), a partir da compilação de várias definições, abordou as atitudes como “uma organização duradoura de crenças e cognições, em geral dotada de carga pró ou contra um objeto social definido, que predispõe a uma ação coerente com as cognições e afetos relativos a esse objeto” (p.345).
Para Eagly e Chaiken (1998), a atitude consiste em uma tendência psicológica que expressa a avaliação de uma entidade específica, com algum grau de favorabilidade ou desfavorabilidade. As autoras comentam, ainda, que as pessoas demonstram atitudes quando amam ou odeiam algo ou alguém, objetos concretos, organizações, idéias ou ideais. Tais atitudes, entretanto, expressam-se não apenas através do ódio e da paixão, mas também através de graus intermediários de emoção, como a atração ou repulsa, as preferências ou aversões e o interesse ou desprezo. A partir dessas tendências, diz-se, então, que uma pessoa tem atitude positiva se aprova o objeto de sua atitude e negativa, se o reprova.
Segundo Rodrigues (1999), a maioria dos estudiosos das atitudes considera que tal constructo é composto por três componentes ou dimensões: o afeto, a cognição e o comportamento. A dimensão cognitiva contém os pensamentos, as informações e as crenças que uma pessoa tem a respeito do objeto de sua atitude; a afetiva associa-se às emoções que a pessoa apresenta em relação ao objeto de sua atitude e a comportamental refere-se ao que a pessoa faz em relação a este objeto. Essas dimensões constituem, assim, os meios pelos quais se infere a atitude, já que ela, por ser um constructo puramente interno, não é diretamente observável.
Eagly e Chaiken (1993), porém, mostram-se mais adeptas de um modelo unidimensional, que considera apenas a dimensão avaliativo-afetiva na conceituação da atitude. Tal contraposição entre um modelo tridimensional e um modelo unidimensional na caracterização das atitudes tem marcado a evolução deste conceito e orientado o debate acerca da consistência entre atitudes e comportamento, que será aprofundado em uma seção posterior do presente trabalho.

1.2. A Formação das Atitudes Voltar
As teorias desenvolvidas para explicar a formação de atitudes podem ser subdivididas em comportamentais e cognitivas, sendo que as primeiras apoiam-se nos princípios behavioristas de observação do comportamento, enquanto as segundas investigam a formação das atitudes a partir de processos internos, não diretamente observáveis.
Os enfoques baseados nos postulados comportamentais partem do pressuposto de que novos comportamentos podem ser aprendidos, a partir de outros já estabelecidos. Nesse sentido, explicam a formação de atitudes com o apoio dos princípios de condicionamento clássico e operante. Destacam-se também, nesse grupo, a teoria da autopercepção de Bem e a hipótese da mera exposição de Zajonc.
O princípio do condicionamento clássico afirma que um estímulo condicionado, quando temporalmente e repetitivamente relacionado a um estímulo desconhecido ou indiferente, passa a condicioná-lo também, tornando-o assim, um estímulo condicionado a uma determinada resposta (Fishbein & Ajzen, 1975). Assim, por exemplo, uma pessoa que trabalhe perto de uma igreja e, ao ouvir os sinos do meio-dia, costuma sair para almoçar, passará, depois de um certo tempo, a sentir fome quando ouvir os badalos desse sino, ainda que antes do meio-dia.
Já o princípio do condicionamento operante preconiza que uma resposta pode ser reforçada com a finalidade de se obter ou evitar um comportamento. O condicionamento operante é portanto uma instrumentalização do princípio de condicionamento. Assim, uma mãe, conhecendo o gosto do filho pequeno por chocolate, poderá privá-lo ou recompensá-lo com o chocolate, para que ele se comporte do modo como ela quer, até que ele se habitue e não mais precise da recompensa ou da punição. O estímulo incondicionado - o chocolate -, ao ser oferecido como recompensa por uma tarefa bem feita (como arrumar o quarto, por exemplo), reforça tal comportamento. Por outro lado, a privação do chocolate (devido a uma desobediência por exemplo) serve como punição para este comportamento indesejável. Ambas as situações apresentam, portanto, um estímulo incondicionado - o chocolate - e um resultado, qual seja o bom comportamento por parte da criança. A utilização do estímulo incondicionado para obtenção do comportamento desejado constitui, então, o processo de condicionamento operante (Fishbein& Ajzen, 1975).
Tanto o condicionamento clássico quanto o operante, ao associarem objetos antes desvinculados, criam necessariamente um processo afetivo-avaliativo no indivíduo condicionado. No condicionamento clássico, se a resposta condicionada for positiva, o estímulo condicionado suscitará uma atitude favorável, e, se for negativa, uma atitude desfavorável. No condicionamento operante, a recompensa se reverterá em uma atitude favorável a quem aplica o estímulo e, a punição, em uma atitude negativa em relação a quem a aplica (Fishbein & Ajzen, 1975). Assim, por exemplo, se a mãe sempre der a recompensa e o pai a punição, ocorrerá uma aversão ou uma atitude negativa em relação ao pai e uma preferência ou atitude positiva em relação à mãe.
A teoria da autopercepção, assim denominada por Bem (1965, citado por Eagly 1993), originou-se da teoria da dissonância cognitiva, mas, apesar de sua dimensão cognitiva, ela é parcialmente apoiada em princípios comportamentais. De acordo com ela, as atitudes se formam a partir da observação do próprio comportamento e das circunstâncias nas quais ele ocorre, como forma de afirmar algo a si mesmo e aos outros. Assim, uma pessoa que é considerada desastrada poderá passar a se comportar ou a valorizar o comportamento que confirma sua imagem de desastrada, caso isso facilite sua aceitação no grupo e, consequentemente, diminua o sofrimento causado por sua rejeição. Em outras palavras, mesmo que a idéia de ser desastrado seja repulsiva, ela é compensada pela aceitação que o indivíduo obtém no grupo, ao aceitar o rótulo de desastrado. Esta pessoa passa então a se considerar desastrada, a se perceber como desastrada e a assumir a atitude de desastrada.
A hipótese da mera exposição, desenvolvida por Zajonc (1968, citado por Eagly, 1993), preconiza que as atitudes se formam a partir da simples apresentação de um objeto às pessoas. Tal hipótese foi comprovada pelo autor ao mostrar, para diferentes grupos de pessoas, três diferentes tipos de estímulos (palavras turcas a respeito das quais nada era possível entender, caracteres chineses e fotografias inéditas), em freqüências variadas (nenhuma vez, duas, cinco, dez e vinte e cinco vezes) e, em seguida, perguntar a essas pessoas como elas julgavam o significado daquelas palavras e fotos só pela aparência, em termos de elas representarem algo bom ou ruim. Os resultados mostraram que quanto mais se expunha um objeto, mais as pessoas se manifestavam favoravelmente a ele, fosse ele relacionado a palavras turcas, caracteres chineses ou fotografias.
Cumpre ressaltar, porém, que a relação entre a atitude e o número de apresentações não é linear, já que o excesso de estimulações pode até mesmo vir a provocar um efeito contrário, levando as pessoas a criarem aversão ao estímulo. Existe assim um ponto ideal no qual a favorabilidade da atitude é maximizada e a partir do qual ela passa a decrescer, conforme descoberto em outros estudos que utilizaram essa mesma técnica. Por outro lado, Bornstein (1974, citado por Eagly, 1993), ao realizar uma meta-análise dos estudos sobre o assunto, concluiu que, além no número de apresentações, outras variáveis associadas à apresentação dos estímulos proporcionam uma maximização da favorabilidade da atitude. Assim é que estímulos complexos mostram-se superiores aos estímulos simples e, estímulos com duração de 1,5 segundos, melhores que os de 5 segundos. Em síntese, a mera exposição, apesar de aparentemente simples, pode ser potencializada com diferentes artifícios, o que a torna um recurso complexo e rico para a manipulação da formação de atitudes.
As teorias cognitivas apoiam-se no princípio de consistência cognitiva, que se tornou popular nos anos 50 e 60, e que postula que as pessoas almejam a coerência entre as crenças sobre determinados objetos e o valor afetivo que eles possuem. Nesse sentido, quando ocorrem inconsistências ou desequilíbrios entre tais crenças e afetos, as pessoas procuram reduzi-los ou compensá-los através da formação de novas atitudes (Himmelfarb, 1993). As principais teorias cognitivas sobre a formação das atitudes são a teoria do equilíbrio de Heider e a teoria da dissonância cognitiva de Festinger.
A teoria do equilíbrio de Heider apoia-se em um modelo triádico, que envolve a relação entre duas pessoas e um objeto. O sujeito cuja atitude se estuda é denominado P, a pessoa em relação a quem P possui uma atitude é denominado O e o objeto em relação ao qual tanto P como O apresentam atitudes independentes é denominado X. Admitindo-se apenas as atitudes de P em relação a O e X e a atitude de O em relação a X, torna-se possível a derivação de oito diferentes configurações para a tríade, sendo quatro delas consideradas estáveis ou equilibradas e quatro consideradas instáveis ou desequilibradas. Como todas as relações tendem para o equilíbrio, a teoria prevê que as situações desequilibradas, por gerarem desconforto, tendem a se modificar, de modo a se tornarem equilibradas, o que implicará no surgimento de novas atitudes capazes de equilibrar um estado desconfortável (Himmelfarb & Eagly, 1974). Assim, por exemplo, quando P é favorável a um determinado candidato à presidência (O) que defende a redução de impostos (X), idéia vista favoravelmente por P, temos uma situação equilibrada, já que P é favorável a uma pessoa que também defende a sua idéia. Por outro lado, se esse candidato à presidência (O) fosse favorável ao aumento de impostos (X), teríamos uma situação desequilibrada, já que P seria favorável a uma pessoa (O) que defende uma idéia contrária a sua (X). Para resolver esse desequilíbrio, P pode mudar de candidato ou pode passar aceitar a necessidade de aumento dos impostos, formando assim uma nova atitude. Suponhamos agora uma terceira situação, na qual surge um outro candidato à presidência, sobre quem P não possui nenhuma atitude, por ser desconhecido. Ao ser informado que seu salário seria aumentado, caso esse candidato desconhecido fosse eleito, P passa a apoiá-lo, porque seu aumento de salário é mais importante que sua convicção político-partidária. P passa, assim, a ter uma atitude positiva ao candidato que antes lhe era indiferente em virtude de sua favorabilidade a X, isto é, P forma uma atitude positiva sobre O' (o candidato desconhecido).
A teoria da dissonância cognitiva de Festinger afirma que os estados dissonantes são desconfortáveis e tendem à mudança, enquanto os estados consonantes são confortáveis e tendem à estabilidade. A dissonância é portanto um estado psicológico de tensão que motiva a pessoa a agir no sentido de diminuir essa tensão, o que pode ser obtido alterando-se a importância dos elementos que constituem a situação dissonante, adicionando-se a ela elementos positivos ou diminuindo-se a importância dos negativos. Assim, por exemplo, um atleta, que perca uma competição, pode pensar que “não ganharia nada além de aplausos, então não perdi grande coisa”, isto é, pode desenvolver uma atitude de desvalorização da vitória, tornando assim a cognição da perda menos desconfortável e diminuindo, deste modo, sua dissonância (Himmelfarb & Eagly, 1974).
As diversas teorias desenvolvidas para a explicação do processo de formação das atitudes indicam que estamos longe de encontrar um modelo único que explique todas as possíveis circunstâncias através das quais as atitudes se formam. Assim é que Rodrigues (1996) sugere que o processo de formação de atitudes seja abordado ecleticamente, de modo a que as contribuições das diversas linhas permitam uma integração harmoniosa, capaz de explicar satisfatória e empiricamente os mecanismos subjacentes à formação das atitudes.

1.3 Funções das Atitudes Voltar
Na década de cinqüenta, dois grupos independentes de pesquisadores apresentaram seus pontos de vista a respeito das funções das atitudes: o grupo de M. Brewster Smith e o grupo de Daniel Katz (Eagly & Chaiken, 1993).
O grupo de Smith estudou as atitudes a partir das opiniões expressas, procurando detectar a utilidade destas manifestações. De acordo com esta perspectiva, portanto, as opiniões assemelhavam-se às atitudes e exerciam uma função mediadora entre as demandas internas e as demandas do ambiente externo, isto é, serviam para adaptar o indivíduo à sociedade (Rodrigues, 1996). Nesse sentido, as funções das atitudes identificadas por esse grupo foram as de avaliação do objeto da atitude, ajustamento social e externalização.
A função de avaliação do objeto diz respeito ao fato de as atitudes permitirem às pessoas avaliarem os estímulos (objetos) quanto às suas conseqüências, tendo como referência suas atitudes e valores preestabelecidos, o que lhes permite empreenderem ações coerentes com tais valores e atitudes anteriores (Eagly & Chaiken, 1998). Esta função das atitudes serve assim para situar o indivíduo de forma realista e lógica no contexto do seu ambiente.
A função de ajustamento social associa-se ao fato de as atitudes servirem para harmonizar as relações sociais. Desse modo, em situações de conflito que podem ter repercussões indesejáveis, o indivíduo tende a adotar atitudes que possam evitar tais situações. Assim, por exemplo, em um encontro importante, um indivíduo poderia causar grande mal estar se decidisse expressar sua opinião logo após alguém ter expresso uma opinião diametralmente oposta a sua. Contudo, se ele considerar que naquele momento o bem estar é mais importante do que a manifestação de sua opinião, ele pode omitir-se ou manifestar-se superficialmente (Rodrigues, 1999).
A função de externalização ocorre quando certos acontecimentos contrariam a expectativa do sujeito, o que faz com que uma nova atitude se forme, com o objetivo de diminuir a tensão gerada por aquela frustração. Assim, por exemplo, um sujeito que não conseguiu emprego em uma multinacional, apesar de querer muito isto, pode acabar desenvolvendo uma atitude negativa em relação a essas empresas, como forma de encobrir e substituir o rancor decorrente do fato de nunca ter sido contratado por elas. Em outras palavras, para conformar-se à situação de ter sido contrariado em suas expectativas, o indivíduo exterioriza sua nova atitude contra as multinacionais, aliviando desta forma sua tensão interna, isto é, o fato de ele pensar que as multinacionais não valem mesmo à pena lhe propicia um estado mais confortável e equilibrado.
Para Katz, as atitudes cumprem funções utilitárias e cognitivas, bem como funções de defesa do ego e de expressão de valores (Eagly & Chaiken, 1993). A função utilitária, também denominada instrumental ou de ajustamento, baseia-se no princípio comportamental de que as pessoas buscam a recompensa e evitam a dor. Nesse sentido, uma das funções das atitudes seria a obtenção de benefícios pessoais, isto é, elas seriam úteis para o alcance de um determinado fim. Logo, uma pessoa que deseje obter dinheiro ou outras oportunidades na vida pode adotar atitudes que levem a essa finalidade, não por considerarem positivo o objeto de sua atitude, mas por almejarem o objetivo que está além dessa atitude (Eagly & Chaiken, 1998).
A função cognitiva diz respeito ao fato de as atitudes permitirem que os indivíduos simplifiquem a complexa rede de informações ambíguas que provêm de seu meio ambiente e as interprete de forma coerente, suprindo, assim, a necessidade humana de ter um conhecimento estável e organizado a respeito do ambiente (Eagly & Chaiken, 1993). Assim, por exemplo, os indivíduos tendem a manter atitudes favoráveis às pessoas desconhecidas que andam de terno e gravata, por acreditarem que elas exibem um grau de instrução mais elevado, sendo portanto mais indicadas para se pedir uma informação na rua. Tal atitude serve assim para abreviar o tempo que a pessoa levaria para escolher alguém na rua para pedir informações, isto é, simplifica a ação de pedir informações a todas as pessoas que passam.
A função de defesa do ego observada por Katz é semelhante à função de externalização preconizada por Smith (Eagly & Chaiken, 1993), isto é, para ambos os autores as atitudes por vezes se formam com o intuito de proteger os auto-conceitos contra ameaças externas. Já a função de expressão de valores está ligada à função de adaptação social, isto é, pela manifestação das atitudes as pessoas expressam seus valores, permitindo que seus semelhantes os reconheçam e formem grupos de convivência harmônicos e estáveis. Um ambientalista, por exemplo, é uma pessoa simpática a todas as iniciativas que diminuam a agressão ao meio ambiente e contrária às que o agridem. Assim, as pessoas educadas a preservar e a não sujar o meio ambiente terão a simpatia desse ambientalista, que procurará delas se aproximar, ao contrário daqueles que não se comportam de modo a preservar a natureza.
Os grupos de Smith e Katz, ao estudarem as funções das atitudes, desvendaram, em última análise, o valor heurístico das atitudes. Em outras palavras, o fato de as atitudes nos permitirem adotar o comportamento mais adequado a cada experiência vivida funciona como um atalho que abrevia o tempo de processamento das informações necessárias à manifestação das condutas sociais.


1.4 As Atitudes sob a Perspectiva da Teoria da Ação Racional
1.4.1 A Teoria da Ação Racional Voltar
A teoria da ação racional, formulada por Fishbein e Ajzen (1975), considera que as pessoas comportam-se de forma racional, avaliando o que têm a perder e a ganhar com a manifestação de suas atitudes. Muitas vezes, fazer o que se deseja pode proporcionar uma satisfação inicial, mas posteriormente acarretar conseqüências prejudiciais e mais intensas que os benefícios obtidos, o que faria com que a satisfação obtida deixasse de valer à pena. Esse modo racional de avaliar cada decisão é que deu à teoria o nome de teoria da ação racional, na medida em que ela pressupõe uma avaliação racional do comportamento a cada passo (D'Amorim, 1996).
A descrição dos principais pressupostos que dão sustentação à referida teoria será orientada pela Figura 1, que apresenta o esquema geral da mesma, no que diz respeito às variáveis que a compõem e ao modo pelo qual elas interagem entre si. Num primeiro momento, essas variáveis serão definidas, para depois se proceder à elucidação do processo por meio do qual elas interagem.

Linha pontilhada - possível explicação para as relação observada entre as variáveis externas e o comportamento.
Linha cheia - relações teoricamente estáveis que ligam as crenças ao comportamento.

Figura 1: O modelo da Teoria da Ação Racional (Eagly & Chaiken, 1993).

As variáveis externas da teoria dividem-se em demográficas, atitudes gerais e traços de personalidade e exercem influência sobre as quatro variáveis básicas do modelo, podendo, entretanto, apresentar relevância maior ou menor de acordo com cada estudo específico. Assim, por exemplo, as faixas mais elevadas de idade tendem a ser mais conservadoras e consequentemente, a idade poderá interferir em determinadas atitudes. Por outro lado, a diferença quanto ao sexo pode ser irrelevante ou determinante das atitudes. Desse modo, a opinião quanto ao controle inflacionário sofre pouca influência do sexo, já que todos querem inflação baixa, porém a preocupação com a prevenção de mioma será provavelmente mais acentuada nas mulheres, uma vez que os homens não são atingidos por essa patologia (D'Amorim, 1996).
As atitudes gerais prévias também costumam influenciar as atitudes novas. Assim, por exemplo, quando se tem uma atitude muito positiva em relação a um determinado colégio, a tendência será a de se ter, concomitantemente, uma atitude positiva em relação aos professores e alunos desse colégio, mesmo antes de se ter maiores informações individuais sobre essas pessoas. Logo, as atitude já existentes influenciam as atitudes que se formam posteriormente.
Os traços básicos de personalidade constituem os hábitos e os valores de uma pessoa, caracterizando-se em tendências que se encontram presentes na formação de uma crença ou na sua avaliação. Nesse sentido, as pessoas que apresentam como característica de personalidade a tendência de buscar novidades terão mais facilidade em aceitar idéias inovadoras, ainda que elas não apresentem vantagens imediatas. As variáveis externas encontram-se, portanto, na base de sustentação das variáveis da teoria da ação racional, não podendo ser ignoradas no processo de compreensão da mesma, pois exercem influência direta sobre seus elementos básicos (D'Amorin, 1996).
As variáveis ou elementos básicos do modelo englobam as crenças comportamentais (CC), a avaliação dessas crenças (AC), as crenças normativas (CN) e a motivação (M). A crença comportamental é a base cognitiva da atitude, isto é, a informação que um indivíduo tem a respeito de um determinado objeto, independentemente de ele ser favorável ou desfavorável a este objeto. Tais crenças se formam a partir das informações relevantes disponíveis ao indivíduo, o que envolve tanto as informações teóricas como as experiências vividas. Desse modo, a crença em um objeto dificilmente é constituída por apenas uma informação, mas por um conjunto de informações. Logo, faz-se necessário admitir que para cada atitude existem várias crenças, cada uma com sua respectiva favorabilidade. Assim, para se conhecer a atitude de uma pessoa a respeito de um determinado tema, é preciso conhecer todas as crenças relevantes dessa pessoa a respeito deste tema (D'#amorin, 1995).
A avaliação positiva ou negativa das crenças ou cognições (AC) constitui uma outra variável da teoria da ação racional que, apesar de simultânea à cognição, dela se distingue conceitualmente, muito embora por vezes seja quase impossível desvinculá-las. Nesse sentido, para cada cognição há uma afeição, isto é, uma aceitação ou rejeição exclusiva àquela crença. Uma atitude, então, pode teoricamente existir sem a avaliação que lhe corresponda, porém não pode existir sem uma crença. Contudo, na composição da atitude, a crença isoladamente não tem sentido, sendo imprescindível sua avaliação. Em síntese, para a teoria da ação racional não há atitude (AT) sem a avaliação da crença, já que é a crença avaliada que resultará na atitude (D'Amorin, 1996).
A atitude resulta, assim, do somatório dos produtos das crenças sobre um objeto por suas respectivas avaliações (DAmorin & Vera, 1996), isto é,

AT = SCCi * ACi

em que AT representa a atitude, CC, as crenças comportamentais, i, o fato de que existem várias crenças comportamentais, S, o fato de que todas elas estão sendo somadas e AC as avaliações das respectivas crenças indicadas pela mesma letra i, numa demonstração da correspondência entre a crença e a avaliação.
Como exemplo, vejamos a questão do aborto, fenômeno que se caracteriza pela interrupção da gestação antes da hora adequada e morte do feto, podendo isso ocorrer de forma natural ou provocada. A ocorrência natural do aborto não suscita aprovação ou desaprovação, já que não é possível ser contra ou a favor da natureza, cabendo ao indivíduo tão somente adaptar-se aos acontecimentos. O aborto provocado, no entanto, significa que uma gestação transcorria naturalmente e foi interrompida artificialmente com a finalidade de matar o feto, cabendo aqui, então, a aceitação ou rejeição de tal prática. A condenação ou aprovação (avaliação) do aborto intencional (crença) constitui, assim, a atitude em relação ao aborto. Já com relação ao aborto natural não é possível ser contra ou a favor e, consequentemente não haverá atitude em relação a este fato.
A crença normativa (CN) diz respeito ao que as pessoas importantes para o indivíduo julgam que ele deva fazer. Surge aqui a figura do referente, isto é, pessoas que exercem influência no comportamento do indivíduo, razão pela qual ele se preocupa em apresentar para elas um determinado tipo de comportamento. Assim como a crença comportamental, a crença normativa também é uma cognição, isenta portanto de carga afetiva. Como ela se refere entretanto a crenças sobre o que os referentes pensam a respeito do indivíduo, não faz sentido dizer que exista uma favorabilidade ou desfavorabilidade em relação a essas crenças.
A motivação (M) está para a crença normativa assim como a avaliação está para a crença comportamental. Desse modo, a crença comportamental, associada à avaliação, resultam na atitude, enquanto a crença normativa, associada à motivação, resultam na norma subjetiva. Em outras palavras, cada uma das cognições que configuram a crença normativa, multiplicada pela motivação em cumprir a referida crença, conduzirá à norma subjetiva (NS) (D'Amorin, 1995), isto é,

NS = SCNj * Mj

em que NS é a norma subjetiva, CN, as crenças normativas, a letra j, a indicação de que existem várias crenças normativas, S, a indicação do somatório do produto das crenças normativas pelas respectivas motivações e M, a motivação.
Como exemplo, pode ser citada a situação de um indivíduo que deseja sair com os colegas para tomar chopp após o trabalho. Contudo, uma das pessoas que está indo é mal vista pelo seu chefe, além de que sua mulher não gosta que ele se atrase para o jantar em família. Nessa situação, tem-se então vários referentes: a esposa, o chefe e os amigos. A atitude do indivíduo é favorável a tomar o chopp, porque ele gosta da bebida e da companhia desses amigos, mas os referentes não gostam. A norma subjetiva é, assim, contrária à atitude.
A norma subjetiva regula, portanto, a atitude comportamental, pois nem sempre o que se quer fazer é o que se deve fazer. Desse modo, a intenção de comportamento caracterizar-se-á pelo resultado da interação entre a atitude comportamental e a norma subjetiva. A atitude mostra o que o indivíduo faria se seu ato não tivesse nenhum conhecimento ou repercussão social, mas a atitude, combinada com a norma subjetiva, resultará no ato mais adequado para cada pessoa em cada circunstância. Em síntese, dependendo da intensidade da atitude e da norma subjetiva, a intenção de comportamento poderá seguir em uma ou em noutra direção, isto é, nesse embate, ela representará o que for mais predominante no binômio atitude / norma subjetiva (D'Amorin & Vera, 1996).
A intenção de comportamento sofre ainda a influência dos pesos associados à atitude e à norma subjetiva. Assim é que duas pessoas podem ter a mesma atitude em relação a um objeto, ou seja, as mesmas informações e a mesma direção das avaliações (contra ou a favor), bem como os mesmos referentes e motivações, mas os pesos vinculados à atitude e à norma subjetiva podem levar a comportamentos diferentes. Deste modo, dois irmãos podem desejar cursar engenharia, mas as condições financeiras da família talvez não permitam que o curso seja concluído, embora ambos tenham condições de iniciar a faculdade. Perante tal situação, o irmão mais conservador decide trabalhar antes de começar a faculdade para que depois, com o dinheiro acumulado, tenha segurança para terminar a faculdade. Já o outro prefere arriscar-se a começar logo a faculdade para, caso tenha problemas depois, pensar em como agir. A atitude comportamental (a vontade de cursar a faculdade) e a norma subjetiva (não ter dinheiro para cursar a faculdade) de ambos é igual, mas o peso que um dá à segurança em terminar a faculdade de engenharia é maior num caso do que no outro. Há portanto pesos diferentes para as mesmas avaliações, o que irá levar os dois irmãos a apresentarem intenções de comportamento diferentes. Os pesos, como mostra a Figura 1, dependem das variáveis extrínsecas e não estão submetidos às demais variáveis, sendo determinados empiricamente (D'Amorin, 1996).
A intenção de comportamento é a variável que mais se aproxima do comportamento, e assim, uma pessoa com uma determinada intenção estará pronta para agir e só não o fará se for impedida por algum acontecimento externo e alheio aos processos psicológicos acima descritos, como um acidente, por exemplo. Por essa razão, a intenção de comportamento é considerada por Ajzen e Fishbein como aproximadamente o comportamento propriamente dito, caracterizando-se por refletir a atitude e a norma subjetiva, com seus respectivos pesos (D'Amorim, 1995). A teoria da ação racional pode então ser resumida na seguinte equação:

C @ I = AT + NS = b1AT + b2NS = b1(S CC * AC) + b2 (S CN * M)

A teoria da ação racional vem obtendo mais sucesso na predição do comportamento a partir da atitude que as teorias vistas anteriormente, muito embora os estudos nem sempre conduzam a resultados unânimes. Por outro lado, ela é versátil, podendo ser aplicada em várias áreas da psicologia social, sempre com a mesma técnica o que lhe dá maior fidedignidade.
Posteriormente à elaboração da teoria da ação racional, Ajzen (1988, citado por Armitage & Conner, 1999) formulou a teoria do comportamento planejado. No entanto alguns trabalhos comparativos evidenciaram que a referida teoria não tem se mostrado superior à teoria da ação racional, no que diz respeito à predição do comportamento (Albarracin, Johnson, Fishbein & Muellerleile, 2001; Sutton, McVey & Glanz, 1999). Desse modo, a teoria da ação racional foi adotada como referencial teórico da presente dissertação, o que tornou desnecessária a apresentação pormenorizada das variáveis acrescentadas ao modelo do comportamento planejado.

1.4.2. A Medida na Teoria da Ação Racional Voltar
De acordo com D'Amorim (1996), o método básico de medição da atitude pela teoria da ação racional consiste na utilização de questionários elaborados para esse fim. Como a avaliação da atitude isoladamente não tem sentido nesse modelo teórico, as demais variáveis relacionadas - a intenção de comportamento e a norma subjetiva - também são medidas no mesmo instrumento.
Quando se quer medir essas variáveis em uma pessoa ou em um grupo, é necessário especificar o objeto em relação ao qual elas se referem. Por exemplo, para se saber qual a atitude relativa a uma ideologia, a um determinado governante ou a uma lei, é necessário ter um questionário exclusivamente voltado para aquela ideologia, aquele governante ou aquela lei. Assim, a cada pesquisa é preciso construir o instrumento específico, diferentemente do que ocorre com o estudo da inteligência, da personalidade ou das emoções, para as quais existem os mesmos instrumentos há décadas. Por causa desta particularidade, os autores da teoria da ação racional preocuparam-se em elaborar uma técnica de construção de questionários, padronizando assim o método de pesquisa a ser adotado na testagem empírica de hipóteses fundamentadas no referido modelo teórico.
A primeira etapa da construção do instrumento é a escolha do tema de pesquisa e a realização de um levantamento inicial junto a pessoas pertencentes à população na qual será feita a pesquisa. Este levantamento de forma aberta indaga sobre as vantagens e as desvantagens do objeto da pesquisa, independentemente da aceitação ou rejeição do entrevistado em relação ao tema, podendo as respostas serem gravadas ou anotadas. Pergunta-se também que pessoas ou instituições (referentes) são importantes para o entrevistado, ao emitir uma opinião, isto é, que poderiam influenciar na sua opinião. O número de pessoas necessárias nessa fase é puramente empírico. Enquanto estiverem surgindo mais respostas novas, o levantamento precisa continuar sendo feito. Quando não surgirem respostas novas, em cinco entrevistas seguidas, esta etapa poderá ser interrompida.
O conteúdo das respostas sobre as vantagens, desvantagens e referentes são analisadas separadamente e ordenadas por freqüência, sendo os aspectos mais freqüentes considerados como crenças modais salientes, as quais constituirão os itens do instrumento de pesquisa. O critério para esta definição é o número de vezes que cada resposta é citada e, assim, todas as crenças citadas em 3/4 das respostas são consideradas modais.
Na segunda fase, constrói-se o questionário com escalas de sete pontos, variando em números inteiros de +3 a -3, a serem utilizadas para a mensuração das variáveis em estudo, quais sejam: a intenção de comportamento, as crenças comportamentais, a avaliação das crenças comportamentais, as crenças normativas e a motivação para aderir às crenças normativas. Já a atitude é analisada através de uma pergunta com três alternativas de resposta, isto é, os participantes julgam-na quanto ao fato de ela ser útil ou inútil, boa ou má, agradável ou desagradável, com todas elas variando de +3 a -3.
No julgamento dos itens associados às crenças comportamentais modais as opções de resposta variam de provável (+3) a improvável (-3). A soma algébrica das resposta fornecerá o resultado numérico da crença comportamental. Na avaliação das crenças comportamentais, repetem-se as questões apresentadas para medir as crenças comportamentais, mas as respostas variam de bom (+3) a mau (-3). Para a mensuração das crenças normativas são utilizados os itens extraídos dos referentes e as alternativas de respostas vão de provável (+3) a improvável (-3). Da mesma forma, a motivação em relação à crença normativa é mensurada perguntando-se o quanto os referentes influenciariam na tomada individual de um comportamento, com as respostas variando de provável (+3) a improvável (-3).
As questões do instrumento obedecem a uma determinada ordem de apresentação, que se inicia com a mensuração de um único item sobre a atitude, sendo esta considerada uma medida direta, já que a mensuração indireta da atitude ocorre por meio dos componentes da atitude. Em seguida vêem as perguntas sobre as crenças comportamentais, sobre a avaliação dessas crenças, sobre as crenças normativas e sobre a motivação para acatá-las. Por fim, como item único, apresenta-se a questão sobre a intenção de comportamento. Com exceção dos itens únicos (atitude e intenção comportamental), o número de itens de cada uma das partes dependerá do número de aspectos levantados na primeira fase. O referido método vem sendo repetido nos estudos cuja base teórica é a teoria da ação racional sem apresentar maiores problemas, o que comprova sua praticidade e utilidade.

1.4.3. A Consistência entre Atitude e Comportamento Voltar
A possibilidade de previsão do comportamento a partir da atitude continua sendo um dos principais focos de estudo da psicologia social, o que pode ser verificado pela grande quantidade de publicações atuais sobre o assunto. Face a esse interesse, a teoria da ação racional, ao proporcionar um modelo que permite correlacionar, de forma consistente, a atitude e o comportamento, tem sido usada com freqüência na explicação e descrição do comportamento nas mais variadas situações (Ajzen, 2001).
Historicamente, o estudo da consistência entre comportamento e atitude pode ser dividido em três fases. A primeira questionava se seria possível prever o comportamento a partir da atitude. A segunda, marcada pela influência da teoria da ação racional de Fishbein e Ajzen, melhorou a previsibilidade do comportamento a partir da atitude. A terceira fase caracterizou-se pelo predomínio dos modelos comportamentais (Channouf, Py & Somat, 1996).
A primeira fase sofreu grande influência do estudo de LaPiere, realizado nos EUA no princípio da década de 1930, no qual ficou patente uma nítida contradição entre a atitude verbalizada e o comportamento realizado. No referido estudo, LaPiere viajou pelos EUA com um casal de chineses, freqüentando restaurantes e hotéis. Finalizadas as viagens, telefonou para os locais em que havia estado e perguntou se aceitariam um casal de chineses. Muitos estabelecimentos disseram que se recusariam a aceitá-los, quando na prática não o fizeram (apenas um estabelecimento recusou-se), evidenciando assim uma contradição entre atitude e comportamento, isto é, uma impossibilidade de se prever o comportamento a partir da atitude (Stalberg & Frey, 1995). Corroborando tal posição, Wicker (1969, citado por Channouf, Py & Somat, 1996), realizando uma revisão de 42 estudos a respeito da congruência entre atitude e comportamento, concluiu que menos de 10% das correlações entre atitude e comportamento eram congruentes.
Na segunda fase das investigações acerca das relações entre atitude e comportamento, a pergunta básica era: "quando e em que condições o conhecimento da atitude permite inferir a manifestação de um comportamento?" (Channouf, 1996, p.56). Nesse sentido, um grande número de estudos tem procurado responder a essa pergunta, orientados pela teoria da ação racional, sendo que a maioria dessas pesquisas têm se voltado para a análise das intenções de comportamentos preventivos da saúde.
Fisher, Fisher e Rye (1995), estudando o comportamento de prevenção à AIDS, acompanharam homossexuais masculinos e estudantes heterossexuais durante até 2 meses após terem preenchido um questionário baseado na teoria da ação racional. Os resultados demonstraram que os comportamentos preventivos foram adequadamente previstos pelas intenções comportamentais, as quais, por sua vez, constituíram uma função das atitudes e normas associadas a tal temática. Foi verificado, ainda, que as atitudes sobre os comportamentos preventivos em estudo correlacionavam-se com os produtos das crenças salientes a respeito de tais atos, multiplicadas por suas respectivas, enquanto as normas subjetivas subjacentes a esses atos também se apresentaram correlacionadas com, o produto das percepções acerca do suporte dos referentes salientes a tais atos, multiplicadas pelas motivações do indivíduo em acatar essas opiniões, o que confirmou, assim, as predições da teoria.
Em pesquisa sobre o uso de condom em jovens heterossexuais, Sutton, McVey e Glanz (1999) entrevistaram 949 ingleses na faixa de 16 a 24 anos, utilizando-se de questionário elaborado nos moldes propostos pela teoria da ação racional. Os dados obtidos evidenciaram que: a atitude e a norma subjetiva contribuíram, em igual peso, para a explicação da intenção de comportamento, nenhuma das variáveis sócio-demográficas utilizadas no estudo interferiram nesse processo e a experiência passada no uso do condom suplantou tanto a atitude quanto a norma na predição da intenção de usá-lo no futuro.
Na tentativa de sistematizar o grande acervo empírico já disponível na literatura, no que diz respeito a investigações conduzidas sobre o uso de condom na perspectiva da teoria da ação racional, Albarracin e cols. (2001) conduziram uma revisão meta-analítica de 96 pesquisas que totalizavam 22.594 participantes. As evidências reunidas permitiram as seguintes conclusões: a intenção de comportamento correlacionou-se positiva e significativamente com o comportamento posterior; as atitudes e normas subjetivas contribuíram para a perdição da intenção de comportamento e as crenças comportamentais e normativas correlacionaram-se, respectivamente, com as atitudes e normas subjetivas.
A tendência internacional de apoio aos pressupostos da teoria da ação racional, no que tange à área de prevenção em saúde, foi confirmada por Stockler (2000), em pesquisa recente sobre a intenção de prevenir a osteoporose, na qual entrevistou 100 mulheres cariocas entre 35 e 67 anos. Os resultados apontaram que as crenças comportamentais sobre a eficácia do comportamento preventivo e as crenças normativas, assim como a atitude e a norma subjetiva correlacionavam-se diretamente e de forma significativa com a intenção de se engajar no comportamento referido.
Em investigação que demonstra a aplicabilidade da teoria da ação racional a outras áreas que não a da saúde, Bell, Harrison e McLaughlin (2000) estudaram a opinião de 1.622 estudantes universitários sobre os programas de ação afirmativa, também usando a teoria da ação racional como referencial. Entre outros achados, foi observado que o produto das crenças sobre a ação afirmativa por suas respectivas avaliações demonstrou maior poder em predizer as atitudes sobre tal fenômeno que as crenças ou as avaliações tomadas independentemente. Por outro lado, tanto a atitude quanto a norma subjetiva contribuíram, significativamente e de forma similar, na explicação da intenção de comportamentos associados à implementação de programas de ação afirmativa, além de que tal intenção apresentou-se positiva e fortemente correlacionada com o envio de mensagens aos congressistas em apoio à ação afirmativa.
A terceira fase na história do estudo da consistência entre comportamento e atitude não se identifica com um pesquisador principal, como nas fases anteriores, mas, ao contrário, associa-se a várias equipes que vêm procurando desenvolver modelos que possam responder à seguinte pergunta: "como o comportamento repercute na atitude?" (Channouf & cols, 1996). Desse modo, enquanto até a segunda fase admitia-se que o comportamento era determinado pela atitude, a terceira fase será marcada pelo predomínio de modelos comportamentalistas, fundados na crença de que a atitude pode ser derivada da ação. "É verdade que às vezes defendemos o que acreditamos, mas também é verdade que passamos a acreditar no que defendemos" (Myers, 2000, p.73).
A teoria da autopercepção proposta por Bem (1972, citado por Myers, 2000) constitui um exemplo de tal perspectiva, ao pressupor que as atitudes são derivadas das observações de si mesmo ou do próprio comportamento. Uma pessoa acredita ter uma atitude a respeito de um determinado assunto por ter observado, em si mesmo, o que fazia ou o que falava a respeito desse assunto. Desse modo, se ela fala ou age favoravelmente em relação a determinado objeto, irá passar a admitir que mantém uma atitude favorável ao mesmo. Em síntese, a atitude pode constituir-se, também, no resultado daquilo que a pessoa observou e percebeu de si mesma.
Os modelos em questão não serão aqui aprofundados, por fugirem aos propósitos da presente dissertação. De todo modo, a análise da questão da consistência entre atitude e comportamento revela que, embora tal fenômeno seja complexo, ainda assim, em certas circunstâncias e especialmente sob a perspectiva da teoria da ação racional, é possível prever o comportamento a partir das atitudes, o que denota a pertinência de investigações futuras capazes de aprofundar ainda mais o estudo dessa temática, especialmente no que tange a pesquisas sobre o assunto realizadas por meio da Internet.


II. A Internet e a Psicoterapia Online
2.1. O Indivíduo e a Internet Voltar
As relações humanas através da Internet, também denominadas cibernéticas, contêm peculiaridades que as fazem distintas das demais relações até então conhecidas, como aquelas propiciadas pelo contato face-a-face, por telefone, por carta, etc. Assim é que, excetuando-se a videoconferência, que permite a transmissão parcial da linguagem não verbal, os meios de comunicação online implicam tão somente o contato por escrito, via e-mail, chat ou newsgroup.
O e-mail é a forma mais usada de comunicação na Internet, dispensando assim apresentações. O chat permite que duas ou mais pessoas se comuniquem em tempo real, por escrito, como se estivessem ao telefone, enquanto o newsgroup assemelha-se ao e-mail, embora pressuponha maior difusão da comunicação, já que toda vez que um integrante do mesmo envia uma mensagem, esta é recebida por todos os demais integrantes do grupo, que podem responder à mensagem inicial, assim como observar as respostas dos outros participantes e enviar suas opiniões quando quiserem.
A comunicação pela Internet pode ser também caracterizada como sincrônica ou assincrônica (Suler, 2002). Na primeira modalidade, duas ou mais pessoas comunicam-se em tempo real (nas salas de chat, na troca de mensagens instantâneas por meio do ICQ, e nas videoconferências, por exemplo) e, na segunda, a comunicação é feita em tempos diferentes, ou seja, as respostas são enviadas com intervalos de horas, dias ou tempos maiores (no caso dos e-mails e newsgroups).
Tais formas de comunicação propiciaram uma flexibilização da identidade, isto é, incitaram as pessoas a criarem fantasias a respeito de si próprias nos contatos novos, a dizerem o que não eram e o que não tinham e, provavelmente, o que gostariam de ser ou ter, revelando, assim, um lado que não costuma surgir nas relações interpessoais presenciais. Com a Internet, portanto, a possibilidade de permanecer no anonimato tornou a mentira mais freqüente, levando as pessoas a mentirem inclusive sobre o próprio sexo.
A Internet permitiu, também, que as pessoas se nivelassem em termos de status sócio-econômico, já que todos podem criar um site e divulgar suas idéias pessoais, independentemente de serem um usuário desconhecido ou uma organização poderosa, muito embora a disponibilidade de recursos possa determinar o grau de sofisticação do site. Por outro lado, ela propiciou a quebra dos limites que demarcam as formas tradicionais de relacionamento intergrupal - nas quais os grupos sociais se reconhecem e se identificam pelas semelhanças e se repelem pelas diferenças -, já que os meios de contato por ela viabilizados mostram-se incapazes de revelar semelhanças e diferenças, fornecendo, ao contrário, uma variedade de opções tão ampla que torna um ato de mera sorte o encontro de alguém com quem se tenha afinidades (Suler, 2002).
Em que pesem tais vantagens, é comum na Internet a interrupção de contato, especialmente no acesso por via telefônica, o que pode exercer efeitos negativos no estado emocional e no comportamento dos usuários. Da mesma forma, acessos mais lentos podem perturbar ou irritar os usuários, desgastando ou até mesmo impedindo o desenvolvimento de relações interpessoais adequadas (Suler, 2002).

2.2 A Internet como Ferramenta de Pesquisa Voltar
Por ser a Internet um meio de comunicação relativamente novo, sua utilização em pesquisa ainda é também recente, embora venha se desenvolvendo rapidamente. Os recursos disponíveis na Internet, que podem ser usados para a pesquisa em psicologia, são o e-mail e os softwares que permitem a interação do usuário com a página em que está. Tais ferramentas são amplamente conhecidas pelos profissionais da área de informática, que podem auxiliar os psicólogos na elaboração de pesquisas, já que a simples aplicação de um questionário envolve programação, tanto para a coleta e ordenação de dados como para a interação com o usuário. Assim, é preciso que o pesquisador saiba primeiro o que é possível ser feito com os recursos eletrônicos para então planejar pesquisas pela Internet, com o apoio dos profissionais especializados na utilização de tais equipamentos (Gore & Leuwerke, 2000).
O questionário de auto-aplicação é o mais adaptável à Internet, razão pela qual tem sido o instrumento mais usado para esse fim. Assim é que mesmo os usuários pouco experientes já se depararam com questionários, tendo possivelmente respondido a alguns deles. Este fato é relevante no sentido de tranqüilizar um pesquisador que queira utilizar um questionário, pois ele pode assegurar-se de que os visitantes não deixarão de participar por desconhecerem o referido instrumento (Pettit, 1999).
Na Internet, assim como em qualquer outra forma de pesquisa envolvendo pessoas, são necessários mecanismos de recrutamento, isto é, de captação dos participantes, para posterior seleção dos mesmos. Tal recrutamento realiza-se mediante a divulgação da pesquisa, por meio da página em que ela se encontra, por intermédio dos mecanismos de busca disponíveis ou por meio de links em sites afins, como os que tratam de psicologia ou os pertencentes à universidade na qual a pesquisa será realizada.
Com a chegada do participante ao site da pesquisa completa-se o recrutamento, seguindo-se a partir daí a seleção. Até o momento há três tipos de seleção: a aberta, a específica e a por convite (Nosek, Banaji & Greenwald, 2002). A seleção (ou acessibilidade) aberta é um mecanismo passível de falhas porque pode aceitar participantes desinteressados, que venham a responder inapropriadamente às questões propostas. Essa situação, no entanto, ocorre também nos levantamentos feitos com lápis e papel e, assim, este tipo de inconveniente não é uma exclusividade da Internet.
Na seleção específica, há mecanismos de restrição de acesso, como, por exemplo, a requisição de um número de registro válido no Conselho Regional de Psicologia. Outras formas de restrição também podem ser adotadas, como, por exemplo, apresentar um texto e pedir ao visitante que assinale a interpretação mais correta, o que filtraria as pessoas com boa aptidão na interpretação de textos. No caso dos sites com grande número de visitantes, a seleção específica evita o acúmulo de dados desnecessários. Contudo, a negação de acesso pode, às vezes, estimular a deturpação de informações, como, por exemplo, quando o acesso baseia-se em dados demográficos específicos. A seleção por convite consiste simplesmente em se convidar determinadas pessoas para participarem da pesquisa mediante identificação, não se aceitando, assim, indivíduos que fujam aos critérios previamente estabelecidos.
A seleção das pessoas pode ser também realizada após a sua participação e antes da análise de dados, o que evita a perda de potenciais participantes. Assim, por vezes, pode ser melhor deixar que todos os participantes apresentem seu dados reais e descartar posteriormente aqueles que não preenchem os critérios do que correr o risco de ter os dados falsificados. Em outras palavras, os critérios de seleção podem ser inicialmente omitidos dos participantes (Nosek & cols, 2002).
As pesquisas na Internet estão sujeitas às mesmas regras éticas requeridas pelas pesquisas convencionais (Schrum, 1997). Tais pesquisas apresentam, entretanto, algumas particularidades, como, por exemplo, a questão da segurança quanto ao anonimato. Caso sejam necessários os dados pessoais, eles podem ser submetidos à tecnologia da encriptação, que ainda não foi superada pelos invasores de redes, preservando, assim, a decodificação de dados capturados. No entanto, em muitas pesquisas não é necessária a identificação pessoal, e, consequentemente, nem mesmo a encriptação é necessária, bastando ao pesquisador verificar se as respostas emitidas pertencem a pessoas distintas. O número de IP do visitante revela o provedor que ele utiliza, dado o grande número de provedores existentes pode-se usar esta informação para individualizar um visitante. É muito pouco provável que duas pessoas acessem o mesmo site, ao mesmo tempo, do mesmo provedor.
Dentre as vantagens da Internet como ferramenta de pesquisa está o fato de ela proporcionar acesso a um número vasto de participantes, que podem ser incluídos em um estudo com relativa facilidade e com baixo custo operacional, como no caso de indivíduos de diferentes faixas etárias e sócio-econômicas, localizados em várias partes do planeta. Populações de difícil acesso, como os portadores de doenças raras ou gêmeos monozigóticos, por exemplo, também ficam mais acessíveis (Pettit, 1999). Por outro lado, as despesas geralmente envolvidas numa pesquisa, como os gastos com a manutenção de um local apropriado, equipe treinada e entrada de dados, podem ser dispensados e substituídos por uma Home Page apropriada (Buchanan & Smith, 1999).
No Brasil, entretanto, mais do que em outras nações, a grande barreira de acesso à Internet é o alto custo do equipamento de informática. Assim, o viés mais importante na amostragem populacional é a pequena representação das populações de baixa renda. De todo modo, atualmente, o governo brasileiro vem procurando facilitar o acesso da população de baixa renda a recursos computacionais, o que provavelmente fará com que tal viés diminua nos próximos anos, permitindo que esta parte da população possa ser também representada na Internet.
Uma outra vantagem da pesquisa na Internet está na possibilidade de se criarem softwares interativos como alternativa aos questionários estáticos de auto-avaliação. Além disso, o armazenamento em banco de dados facilita tanto a análise dos dados imediata como a futura (Bartram, 1997).
Entre os problemas típicos das pesquisas via Internet está o fato de como identificar se a pessoa que se apresenta corresponde ao que diz ser. Tal comportamento é comum na Internet, mas ainda não se sabe com que freqüência ele ocorre nas situações de pesquisa científica. Por outro lado, a ausência de uma pessoa para esclarecer dúvidas pode fazer com que as pessoas desistam de participar ou participem da forma errônea. Oferecer instruções mais detalhadas não resolve perfeitamente esse problema, porque exige mais dos visitantes, o que pode levá-los a desistir da participação. Por isso, a explicação inicial deve conter tudo que for essencial e estar escrita de forma clara (Nosek & cols, 2002).
O local onde o participante se encontra também pode interferir no seu desempenho na pesquisa. Assim, por exemplo, alguém que esteja acessando o site pelo local de trabalho pode se submeter a interferências indesejadas ou imprevistas, como ruídos, músicas ou conversas que atrapalhem a concentração do indivíduo. Por outro lado, outras pessoas podem estar vendo o que esta pessoa está fazendo e opinar sobre o que ela deve fazer ou escrever. Recomendações podem ser dadas nesse sentido, mas não é possível saber se serão seguidas ou não (Nosek & cols., 2002).
Em resumo, a pesquisa pela Internet, como todas as outras novidades, apresenta vantagens e desvantagens. As vantagens, entretanto, são enormes e as desvantagens, até o momento, não foram prejudiciais a ninguém. Logo, é provável que essa ferramenta de pesquisa obtenha um considerável desenvolvimento nos próximos anos. Em outras palavras, as pesquisas psicológicas na Internet estão engatinhando, mas o interesse que vêm despertando na comunidade científica leva a crer que elas em breve alcançarão a maturidade.

2.3 A pesquisa em psicologia por meio da Internet Voltar
Um dos primeiros aspectos questionados ao se pensar na realização de estudos científicos pela Internet relaciona-se à equivalência de resultados obtidos com a aplicação de instrumentos em lápis e papel e pela Internet ou entre procedimentos experimentais realizados pela Internet e em contato direto com os participantes. Nesse sentido, alguns estudos têm se dedicado a comparar os resultados obtidos com a aplicação de instrumentos e procedimentos em populações equivalentes pela Internet e pelos meios convencionais.
O estudo de Epstein, Klinkenberg, Wiley e McKinley (2001) teve por objetivo avaliar a atração interpessoal em 213 estudantes heterossexuais de graduação, de uma universidade pública norte-americana. Desse total, 116 preencheram um questionário em papel e 97, um questionário pela Internet. O questionário era composto por 40 itens do tipo Likert, variando de 1 a 7 pontos. A análise dos dados mostrou que os resultados obtidos nos dois grupos eqüivaliam-se quanto à atração interpessoal, validando, assim, a pesquisa sobre atração interpessoal pela Internet.
Ball (1993) comparou os escores do Mini Mental State Examination (MMSE) em onze pacientes recém internados numa clínica psiquiátrica, sendo que seis eram esquizofrênicos, cinco deprimidos e um portava transtorno motor. O MMES foi aplicado em todos por duas vezes, com um intervalo de 48 horas: uma vez em lápis e papel, na presença do avaliador, e, em outra, através de videoconferência. A ordem de aplicação foi randomicamente distribuída. A média dos escores foi comparada, tendo-se verificado que elas não apresentavam diferenças significativas, isto é, que a aplicação do MMSE na presença do avaliador foi similar à realizada por meio de videoconferência.
Em outro estudo, também realizado com o objetivo de comparar os questionários de lápis e papel e os aplicados através da Internet, Joinson (1999) usou uma amostra de 82 estudantes, com idade média de 22 anos, os quais foram divididos em quatro grupos, sendo que dois desses grupos responderam aos questionários nos computadores e os outros dois grupos em formulário de papel. Além disso, para dois dos grupos foi garantida do anonimato dos participantes, enquanto para os outros dois foi exigida a identificação dos participantes. A caracterização final dos grupos ficou então da seguinte forma: Grupo A- resposta no computador e o anonimato; grupo B- resposta no computador e identificação; grupo C- resposta no papel e o anonimato; grupo D- resposta no papel e identificação. Todos os grupos responderam a um mesmo conjunto de questionários, destinados a medir a autoconsciência, a auto-estima e o comportamento social, em salas separadas, para que não pudessem ver que uns faziam o teste em papel e outros, em computador. Os resultados mostraram que o meio pelo qual as respostas eram coletadas influenciavam nas respostas. Assim, as pessoas que usaram computador tenderam a apresentar comportamento social menos adaptado, sendo tal fato mais evidente no grupo que não precisou se identificar. Os autores concluíram, então, que a combinação do uso da Internet com a situação de anonimato fez com que as pessoas adotassem comportamentos menos aceitáveis socialmente.
Eaton e Struthers (2002), com a finalidade de investigar a atitude dos funcionários em relação a sua própria empresa, criaram dois grupos de empregados, sendo que um foi avaliado por questionários em lápis e papel (N=135) e o outro por questionários aplicados através da Internet (N=220). Todos os participantes foram convidados a descrever um incidente negativo envolvendo a empresa em que trabalhavam e a responder a perguntas sobre como se sentiam em relação à empresa e como se comportavam quando tais eventos negativos ocorriam. Os padrões de respostas dos dois grupos foram semelhantes, mas a forma como os empregados se manifestaram foi diferente, tendo-se identificado maior cinismo e maior severidade no julgamentos sobre suas respectivas empresas no grupo avaliado pela Internet.
Celio e cols. (2000) compararam um procedimento de prevenção de transtorno alimentar (que visava reduzir a insatisfação com a auto-imagem corporal e dessa forma prevenir possíveis problemas alimentares futuros) aplicado por meio da Internet e em sala de aula. Para isso, setenta e seis mulheres estudantes de uma universidade privada foram randomicamente distribuídas em três grupos, sendo que um recebeu as instruções pela Internet, outro, na sala de aula, enquanto o terceiro ficou numa lista de espera, servindo como controle. Medidas da imagem corporal, atitudes e comportamentos em relação à alimentação foram efetuadas ao início, ao final do tratamento e quatro meses mais tarde. As participantes dos dois grupos experimentais mostraram resultados equivalentes e superiores aos do grupo controle, tendo apresentado significativa melhora na relação peso/forma, além de diminuírem o peso corporal e aumentarem a satisfação com a forma do próprio corpo. Os autores concluíram, então, que a intervenção realizada pela Internet contribuiu de forma significativa para a redução do risco de incidência de transtornos alimentares.
Com o objetivo de mostrar a viabilidade de se pesquisar pela Internet, Pettit (1999) construiu um site para coleta de dados por meio de um questionário de 10 itens que indagavam a respeito das aversões, hostilidades ou medos do participantes em relação ao computador. O objetivo principal não era, entretanto, investigar as atitudes relativas aos computadores ou à Internet, mas mostrar a utilidade desta última como ferramenta de pesquisa. Para a divulgação, foram usados apenas os próprios recursos existentes na Internet, como cadastramento nos mecanismos de busca e links em sites de psicologia e na universidade onde o pesquisador lecionava, assim como banners. Os indivíduos que acessavam o site eram avisados de que a participação era voluntária e que não havia a necessidade de identificar-se. Em contrapartida, o autor se identificava e oferecia seu e-mail para contato, facilitando com isso a participação. Como resultado foram obtidos, em 21 dias, 800 questionários respondidos. O autor concluiu, assim, que a Internet é um meio fácil e rápido de se coletar dados, além de se mostrar menos sujeito a erros, sendo portanto viável para a pesquisa em psicologia.
Para além da preocupação em mostrar que a Internet é um meio confiável para a realização de pesquisas, além de ser comparável ou até mesmo superior aos meios de pesquisa convencionais, um outro grupo de estudos tem se voltado para a investigação de questões substantivas suscitadas pelo advento da Internet.
Nesse sentido, Nicolaci, Daniela & Raphael (2002), com a finalidade de investigar a forma como crianças e adolescentes lidam com o computador e com a Internet em seu cotidiano, realizaram um levantamento com usuários da Internet de ambos os sexos entre 10 e 15 anos de idade. A coleta de dados inicial realizou-se por meio de gravações de conversas em ambiente informal com grupos dessa faixa etária. A análise do conteúdo dessas conversas propiciou a elaboração de um questionário com perguntas abertas enviado por e-mail a 90 pessoas. A análise dos 30 questionários devolvidos evidenciou, como um dos principais resultados, a importante presença do computador na vida dos participantes, a ponto de eles não entregarem trabalhos escolares escritos a mão, mas somente impressos. A autora concluiu o estudo afirmando que essas crianças e adolescentes fazem uso da Internet como algo natural, e não como uma novidade ou algo sofisticado.
Com o intuito de analisar as novas formas de construção do sujeito na atualidade, tendo como pano de fundo as relações afetivo-sexuais virtuais que se estabelecem nas salas de bate-papo da Internet (chat), Pereira (1999) examinou 140 indivíduos. A avaliação foi feita por perguntas abertas enviadas por e-mail e os participantes foram recrutados por convite, nas próprias salas de chat dos sites uol.com.br e zaz.com.br, ou por e-mail. O autor concluiu que nos chats o sujeito pode ser idêntico a si mesmo ou experimentar novas identidades a seu critério, além de poder perceber o ambiente virtual como distinto do real ou como uma continuação da realidade.
Bevilaqua (2000) estudou as novas formas de ciúme e traição que surgiram com a Internet, isto é, investigou se os usuários de chat percebiam seus relacionamentos afetivos-sexuais "virtuais" como infidelidade e se esta percepção dependia do sexo. Foram analisadas 50 entrevistas (25 para cada sexo) de freqüentadores de chats, tendo-se verificado que, para os homens, as relações afetivo-sexuais virtuais não constituíam infidelidade, uma vez que não envolviam contato físico. Já para as mulheres, o flerte pela Internet caracterizava-se como infidelidade, porque envolvia pensamentos, palavras e obras. A autora concluiu, assim, pela existência de uma disparidade na percepção quanto à fidelidade, no que tange às relações virtuais.
Leon, Rotunda, Sutton e Schlossman (2003) investigaram a atração interpessoal pelo sexo oposto através da Internet, em estudantes universitários (100 mulheres e 94 homens) com idade média de 28 anos. Ao início do experimento, todos preencheram o Interpersonal Trust Scale, que mede o grau de confiança nas relações interpessoais. Em seguida, os participantes foram divididos em dois grupos, sendo que um recebeu uma mensagem que os alertava sobre as facilidades de se conhecer pessoas pela Internet, bem como sobre os potenciais perigos oferecidos por pessoas que mentem ou exageram a seu próprio respeito, enquanto o outro grupo não recebeu nenhuma mensagem. Posteriormente, todos receberam uma foto de um jovem do sexo oposto ao seu próprio, com uma breve apresentação do mesmo, sendo-lhes perguntado se desejavam conhecer e marcar um encontro com esta pessoa. Os participantes que não receberam a mensagem mostraram-se significativamente mais propensos a encontrar a pessoa da foto do que as pessoas que receberam a mensagem de alerta. Além disso, os homens se mostraram mais desejosos em conhecer uma pessoa do sexo oposto do que as mulheres. Os autores concluíram que as mensagens de alerta veiculadas pela Internet são consideradas pelos usuários, isto é, são capazes de levá-los a mudanças de comportamento.
Os estudos aqui revistos revelam que o desenvolvimento da Internet está sendo acompanhado de perto pelos psicólogos, que vêm paulatinamente desvendando suas vantagens, desvantagens, falhas e facilidades. Até o momento, no entanto, as suas vantagens enquanto ferramenta de pesquisa parecem superar as desvantagens. Desse modo, é provável que em futuro próximo seja observado um significativo crescimento das pesquisas online no campo da psicologia.

2.4 A Psicoterapia Online Voltar
A terapia online não se propõe a ser uma nova modalidade de psicoterapia, mas um novo meio de realizá-la. Nesse sentido, Kaplan (1997) afirma que ela consiste em um tipo de terapia na qual o terapeuta encontra-se em um local diferente daquele em que o paciente está, sendo portanto viabilizada pela comunicação bidirecional que se realiza em tempo real, por áudio, audiovisual ou texto, além de poder se efetivar por meios assíncronos, como o e-mail, fitas K-7 e vídeo.
Um terapeuta online assemelha-se, assim, a um terapeuta cego que, por não contar com os recursos visuais, direciona sua atenção para a forma e o conteúdo das mensagens que chegam até ele, obtendo também informações "não verbais" através dos textos. A experiência e o conhecimento individual que ele vai adquirindo de seus clientes acabam por permitir a apreensão de outras modalidades de informações que muitas vezes não são percebidas no contato pessoal, como o estilo de escrita, por exemplo. Assim, a transposição da relação face-a-face para o mundo virtual não representa uma perda completa, mas tão somente a substituição da forma de avaliação da linguagem não verbal, já que esta deixa de ser avaliada pela expressividade corporal e passa a ser avaliada pela expressividade estilística da escrita.
Por outro lado, o fato de a Internet permitir a comunicação à longa distância por um baixo custo implica que uma pessoa, submetendo-se à terapia online, poderá mudar de país e mesmo assim continuar realizando a terapia com o profissional do pais de origem, sem grandes dificuldades. Dito de outra forma, a psicoterapia online permite a transcendência no espaço.
A flexibilidade temporal viabilizada pela Internet é outro importante aspecto a ser considerado na psicoterapia online, na medida em que, na comunicação assincrônica, o estado emocional da pessoa, ao receber as respostas, é diferente do estado emocional em que ela se encontrava na hora em que enviou as mensagens, o que pode ser vantajoso ou não para a prática psicoterápica. Assim, por exemplo, um paciente pode ser levado a constatar que sua conduta foi inapropriada ou imatura, após o tempo em que é forçado a esperar, mas, por outro lado, pode ficar frustrado ao precisar de uma resposta imediata que ele não é capaz de conseguir, chegando esta apenas quando já for tarde demais. Por fim, a possibilidade de gravação das mensagens constitui outra vantagem da psicoterapia online em relação à terapia convencional, por permitir a releitura de mensagens e diálogos passados.
A psicoterapia online, assim como qualquer relação via Internet, pode se dar na forma sincrônica e assincrônica, conforme anteriormente mencionado (Suler, 2002). A primeira modalidade, por envolver uma comunicação em tempo real, pressupõe a marcação de um horário limitado para atendimento, como num consultório, o que facilita a organização dos atendimentos e implica a submissão do paciente a esta regra. Ela permite, assim, que se crie a sensação de que o terapeuta, apesar de não se encontrar visível, está, naquele momento, presente e disponível exclusivamente para o cliente. Tal forma de psicoterapia caracteriza-se, ainda, por promover maior espontaneidade por parte do cliente, especialmente no que diz respeito à revelação de idéias censuradas e à emissão de relatos difíceis ou embaraçosos de serem feitos, motivados em grande parte pela não presença do terapeuta.
Por outro lado, na psicoterapia online sincrônica torna-se por vezes difícil estabelecer horários adequados para ambas as partes, principalmente quando elas moram em locais de fusos horários muito distintos. Além disso, o tempo de comunicação do terapeuta fica reduzido, na medida em que ele necessita utilizar a escrita, que é naturalmente mais demorada do que a fala utilizada na comunicação presencial. Por fim, o tipo de acesso usado pode provocar atrasos no recebimento das mensagens, prejudicando algumas das sessões ou mesmo a terapia como um todo, embora os acessos dedicados possam abrandar esse problema (Suler, 2002).
Na terapia assincrônica, o terapeuta e o cliente não precisam estar se comunicando simultaneamente, o que faz com que a percepção temporal desapareça, já que o cliente passa a se ver como se estivesse constantemente sob terapia, podendo manifestar-se na hora em que os acontecimentos se dão ou na hora que lhe for mais adequada, sem ter de esperar a hora da sessão. Isto vale também para o terapeuta, que conta com uma ampla margem de tempo para pensar ou até pesquisar a resposta a ser dada a seu cliente. Ela não sofre, portanto, influências dos fusos horários, além de propiciar o armazenamento de todas as mensagens trocadas, permitindo, assim, uma análise detalhada e fidedigna do passado (Suler, 2002).
Contudo, por não ter limites temporais, o terapeuta pode acabar se envolvendo muitas horas por semana com os pacientes que apresentam uma demanda intensa, como os ansiosos. Já o cliente pode não se sentir em tratamento, em função de a terapia não ter um horário definido, prejudicando assim, o rendimento terapêutico. A espontaneidade do relacionamento, por outro lado, fica afetada, já que as mensagens podem ser mais estudadas, assim como o senso de compromisso, uma vez que a não existência de um horário determinado pode fazer com que as mensagens sejam relegadas "à hora que der tempo", reduzindo, deste modo, o tempo total de terapia. Por fim, tal modalidade de psicoterapia online implica a perda das possíveis informações obtidas com atrasos ou faltas, no casos em que há uma hora marcada.
A forma assincrônica de psicoterapia online tem sido a mais utilizada e tem ocorrido principalmente por e-mail, em virtude do mesmo constituir-se em um meio mais simples e fácil, apesar de contar somente com textos para a comunicação. A realização de terapia através de salas de chat ou de videoconferência requer um conhecimento maior sobre o uso dos recursos tecnológicos, além de exigir, também, acessos mais potentes em termos de velocidade e amplitude de “banda” mais larga (Suler, 2002).
Em que pesem as vantagens da psicoterapia online, entretanto, torna-se necessária a consideração de uma série de aspectos que permeiam a implementação de tais práticas e que precisam ser aprofundados, antes que a adoção das mesmas em larga escala se torne lugar comum. Uma das primeiras questões e quiçá a mais importante a ser discutida diz respeito ao aspecto ético. Em princípio, toda e qualquer prática psicoterápica exercida sem embasamento científico ou implementada por pessoas incompetentes no assunto é considerada antiética, o que torna necessária a supervisão de um conselho de ética que possa coibir tais práticas.
Uma outra questão que merece ser considerada diz respeito à troca de pessoas. Será que a pessoa que está atendendo de forma síncrona ou assíncrona é de fato o terapeuta? Será que o cliente é o mesmo? Tais perguntas são difíceis de serem solucionadas sem a videoconferência, já que até mesmo a identificação biométrica (como, por exemplo, a impressão digital, de voz ou da íris) pode ser usada pela pessoa autorizada sem que ela própria permaneça no diálogo.
Por outro lado, que regras devem ser adotadas para se autorizar um psicoterapeuta a praticar a psicoterapia online? Autorizá-lo desde já significaria assumir que a terapia online equivale à terapia presencial. Contudo, impedir que isso seja feito significa dificultar o acesso à terapia de pessoas que dela necessitam para o restabelecimento de sua saúde mental, como, por exemplo, aquelas que moram em locais onde não há psicólogos ou que não possuem meios de se locomoverem até o consultório de seus terapeutas. O que seria mais antiético, então: impedir que os profissionais realizem desde já a psicoterapia cibernética por falta de embasamento científico ou privar as pessoas que necessitam de apoio psicológico de serem a ela submetidas? (Suler, 2002)
Por fim, uma questão ética que atinge não apenas a terapia online mas todo o sistema econômico: que legislação incide sobre os usuários da terapia online. Para o mundo virtual, um cliente brasileiro, residente nos EUA, que faça terapia com um psicólogo de dupla nacionalidade (alemã e norte-americana) que resida na França e utilize um servidor no Japão não constitui nenhum absurdo. Mas para o mundo legal, quais seriam as leis válidas? No caso de imperícia, imprudência ou negligência, qual seria o sistema legal a ser usado?
Em síntese, a psicoterapia online possui certas peculiaridades que a fazem diferente das demais práticas já existentes e aprovadas, o que não implica que ela deva por isso ser antecipadamente condenada mas, ao contrário, torna patente a necessidade de um aprofundamento dos estudos a este respeito, que possam dar respaldo científico a tais procedimentos e dirimir as dúvidas que ainda existem a respeito de sua implementação. No Brasil a terapia online ainda é proibida, estando autorizada apenas para estudos científicos, desde que o protocolo de pesquisa tenha sido antes aprovado pelo Conselho Nacional de Saúde, razão pela qual ela não pode ser exercida sob cobrança de honorários, além de que o usuário deve estar previamente ciente de que ele estará apenas participando de uma pesquisa (Conselho Federal de Psicologia, 2000).

2.5. A Pesquisa sobre a Psicoterapia Online Voltar
Apesar de a psicoterapia online constituir prática recente, já é possível encontrar na literatura algumas investigações sobre a eficácia de tal modalidade psicoterápica. Nesse sentido, Tate, Wing e Winett (2001) conduziram um estudo com o objetivo de verificar a eficácia da terapia comportamental via Internet na perda de peso. Foram aceitos inicialmente 99 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 60 anos e com um índice de massa corporal entre 25 e 36 Kg/m2, sendo que apenas 65 completaram o estudo, que durou 6 meses. Os participantes foram randomicamente distribuídos em dois grupos: o grupo controle recebeu instruções educativas para perda de peso, enquanto o grupo experimental foi submetido à terapia comportamental pela Internet. Os pesos corporais e as circunferências abdominais foram comparadas no início, aos 3 e 6 meses de acompanhamento, com a primeira medida sendo feita em um encontro face-a-face e as demais, transmitidas pela Internet. Os resultados mostraram que os participantes do grupo experimental apresentaram redução significativa de peso, em comparação ao grupo submetido à educação alimentar.
Anderson, Stromgren, Strom e Lyttkens (2002) procuraram tratar, através da terapia cognitivo-comportamental via Internet, pessoas fortemente incomodadas por zumbidos. Os participantes foram recrutados por sites e artigos de jornais, totalizando 117 pessoas divididas em dois grupos randomizados: o grupo de controle foi formado por pessoas que preenchiam os questionários de avaliação numa lista de espera e o experimental, por pessoas que efetivamente se submeteram à terapia cognitivo-comportamental por um ano. O zumbido não foi eliminado, mas o incômodo por ele provocado diminuiu em aproximadamente 50%, nas pessoas tratadas. Os autores concluíram então que o tratamento cognitivo-comportamental pela Internet mostrou-se eficaz no controle do aborrecimento causado pelo zumbido.
Lange, Ven, Schrieken e Emmelkamp (2001) formaram dois grupos de estudantes que apresentavam estresse pós-traumático, tendo submetido um dos grupos (experimental) ao protocolo de tratamento Interapy, que inclui triagem, psico-educação e tratamento pela Internet, por 6 semanas, enquanto o grupo de controle foi mantido em uma lista de espera. Ao início e ao final do tratamento, ambos os grupos foram avaliados por meio dos seguintes instrumentos: Symptom Checklist (SCL-90), Somatoform Dissociation Questionnaire (SDQ-5), Impact of Events Scale (IES) e Profile of Mood State (POMS). A análise dos resultados evidenciou que mais de 80% dos participantes do grupo experimental obtiveram uma melhora significativa nos sintomas relativos ao estresse pós-traumático, bem como nos sintomas psicopatológicos gerais, em comparação ao grupo de controle.
Christiensen, Griffiths e Korten (2002) desenvolveram uma intervenção terapêutica gratuita de base cognitivo-comportamental na Internet (http://moodgym.anu.edu.au), planejada especialmente para tratar e prevenir depressão em jovens. A eficácia da intervenção foi testada durante seis meses, tendo 2.909 pessoas se inscrito e 1.503 completado a avaliação. Os participantes responderam a uma escala de avaliação de ansiedade e outra de depressão, as quais foram aplicadas no início do processo e por mais outras cinco vezes. Ao final dos seis meses de estudo constatou-se uma redução significativa nos escores de depressão e de ansiedade ao longo do tratamento, o que levou os autores a concluirem que a Internet é um meio promissor para o tratamento preventivo da depressão, com base na terapia cognitivo-comportamental.
Cook e Doyle (2002) realizaram uma pesquisa para verificar se a aliança estabelecida entre cliente e terapeuta através da Internet era equivalente à estabelecida na terapia presencial. A avaliação do vínculo foi feita através de um inventário especificamente desenvolvido para avaliar a aliança entre cliente e terapeuta. A análise dos resultados revelou que não foram encontradas diferenças nas médias dos dois grupos, numa indicação de que a aliança na terapia online pode ser construída com a mesma qualidade em que ela ocorre na terapia convencional, já que por ambos os meios, os clientes conseguiam transmitir suas queixas e problemas, tendo-se notado inclusive uma desinibição ligeiramente maior do participantes pela Internet.
Os estudos aqui revistos, ainda que em baixo número, denotam que a terapia cibernética já constitui uma realidade em alguns países, além de vir despertando o interesse crescente de pesquisadores desejosos de comprovarem seus efeitos positivos e negativos, bem como contribuírem para a coleta de evidências acerca de sua validade e confiabilidade. No entanto, é possível notar, também, que todos eles, sem exceção, fizeram uso da abordagem cognitivo-comportamental, o que pode ser interpretado como um indício de que, até o momento, apenas esse tipo de abordagem apresenta características apropriadas à realização da psicoterapia online.

III. Discussão da Literatura e Formulação dos Objetivos da Pesquisa Voltar
A revisão dos estudos voltados para a análise da questão da consistência entre atitude e comportamento evidencia que nem sempre o que é manifestado verbalmente corresponde ao que é feito na prática, ou seja, nem sempre se faz o que se fala, o que equivale a dizer que a atitude, como parâmetro isolado, não tem se mostrado um fator fidedigno de previsão do comportamento, conforme demonstrou claramente o estudo de La Piere (Lima, 1993), no princípio do século passado. Contudo, a introdução da teoria da ação racional (Fishbein & Ajzen, 1975) na literatura psicológica reacendeu o debate a respeito dessa temática, ao utilizar conceitos que implicavam em novas possibilidades de se prever e explicar o comportamento humano. Nesse sentido, a referida teoria procura explicar a relação entre a intenção de comportamento e o comportamento propriamente dito, a partir das atitudes em relação ao objeto, das influências externas e dos valores e crenças mantidas em relação àquele objeto.
Até o estudo de LaPiere, então, tentava-se relacionar a atitude ao comportamento. A partir da introdução da teoria da ação racional, entretanto, a atitude deixou de ser a única variável a prever o comportamento, na medida em que outras variáveis, tais como as crenças comportamentais, a avaliação das crenças, as crenças normativas e a motivação para aderir a essas crenças, passaram também a figurar como elementos importantes nessa predição. Com essas mudanças, tornou-se possível buscar relações mais precisas entre cada uma das partes que compõem a teoria da ação racional e a intenção de comportamento ou o comportamento observável. Assim é que, fundamentando-se nessa perspectiva teórica, vários trabalhos recentes têm comprovado a relação entre os diversos componentes da teoria e diferentes intenções de comportamento, associadas, por exemplo, à prevenção da AIDS (Fisher & cols., 1995), ao uso de condom (Albarracin & cols., 2001; Sutton & cols. 1999), à prevenção da osteoporose (Stockler, 2000) e ao apoio a programas de ação afirmativa. Em síntese, a teoria da ação racional dotou os estudiosos das atitudes com um modelo capaz de predizer intenções e/ou comportamentos específicos a partir da combinação de atitudes com outros elementos a elas contingentes comportamentos (crenças e normas subjetivas), o que não era possível nos estudos desenvolvidos na tradição de La Piere, em função de que eles procuravam associar atitudes gerais a comportamentos gerais.
Uma outra linha recente de investigações, que vem galgando, progressivamente, posição de destaque nas publicações especializadas, diz respeito às possibilidades de utilização da Internet como ferramenta de pesquisa, conforme pode ser verificado nos trabalhos de Bartram (1997), Nosek e cols (2002), Pettit (1999) e Schrum (1997). Associadas ao advento da Internet, as discussões acerca da psicoterapia online também têm se intensificado. Assim é que o referido tema vem sendo debatido em congressos de psicologia, em grupos de profissionais e nos conselhos regionais e federal de psicologia. Não foram, porém, encontradas na literatura, investigações voltadas para o teste direto das atitudes sobre a psicoterapia online, especialmente no que tange a pesquisas orientadas pela perspectiva da teoria da ação racional. Contudo, o conhecimento das crenças e atitudes a respeito dessa temática poderá trazer importantes subsídios aos defensores de tal prática, que desejam vê-la aprovada e regulamentada.
Tomando por base essas considerações, o presente trabalho pretendeu investigar a congruência entre a atitude das pessoas a respeito da psicoterapia online e a intenção de aprovar a regulamentação dessa forma de terapia, utilizando a Internet como ferramenta de pesquisa. Nesse sentido, orientou-se pelos seguintes objetivos:

3.1. Verificar o poder preditivo das crenças comportamentais sobre a terapia online, da avaliação dessas crenças e do produto dessas crenças por suas avaliações, nas atitudes sobre a terapia online.

3.2. Verificar o poder preditivo das crenças normativas sobre a terapia online, da motivação para aderir a essas crenças e do produto dessas crenças normativas pelas motivações, na norma subjetiva associada à terapia online.

3.3. Verificar o poder preditivo das atitudes sobre a terapia online e da norma subjetiva, na intenção de aprovar a regulamentação de tal prática.

IV. HIPÓTESES Voltar

Para atender a tais objetivos