UNIVERSIDADE GAMA FILHODEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA
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RESUMO
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Apoiando-se da teoria da ação racional como referencial, o presente
trabalho procurou investigar a congruência entre as atitudes das pessoas
a respeito da terapia online e a intenção de aprovar a regulamentação
dessa forma de terapia. Participaram do estudo 161 pessoas de ambos os sexos,
com idade média de 31,4 anos, sendo que a maioria era constituída
por leigos na área de sáude mental. A coleta de dados foi realizada
em um site na Internet dedicado à saúde mental, através
de um questionário construído de acordo com os parâmetros
estabelecidos pela teoria da ação racional. Os resultados obtidos
evidenciaram que as crenças comportamentais foram a principal determinante
das atitudes, enquanto as crenças normativas foram a variável
que exerceu maior influência na norma subjetiva associada à terapia
online. Foi verificado, ainda, que tanto a atitude quanto a norma subjetiva
contribuíram para a predição da intenção
de aprovar a regulamentação da terapia online, embora a atitude
tivesse exercido maior peso nessa predição. Tais resultados são
discutidos à luz de achados anteriores que também convergem no
sentido de validar os principais pressupostos da teoria da ação
racional. À guisa de conclusão, são comentadas as possibilidades
futuras de utilização da Internet como ferramenta de pesquisa
psicológica.
ABSTRACT
Voltar
Using the theory of
reasoned action as a reference, this work tried to investigate the consistency
between people attitudes with respect to online therapy and the intention to
approve the regulations for this kind of therapy. This study involved 161 male
and female participants aging 31.4 years in average, the majority being outsiders
of the mental health area. The data has been collected through an Internet site
dedicated to mental health, by using a questionnaire which was built following
the parameters established by the theory of reasoned action. The results thereof
made it evident that the behavioral beliefs were the major determinant for the
attitudes, while the normative beliefs were the variant which most influenced
the subjective norm associated to online therapy. It was also found out that
both the attitude and the subjective norm have largely contributed to predict
that there is an intention to approve the regulations for the online therapy,
although the attitude has had a greater weight on this forecast. These results
are discussed in light of previous findings which are also convergent towards
the validation of the theory of reasoned action main assumptions. As a conclusion,
the future possibilities of using the Internet as a psychology research tool
are also commented.
INTRODUÇÃO
Voltar
Nas últimas décadas, as tecnologias de comunicação
sofreram um grande avanço. Inicialmente, o telefone permitiu, pela primeira
vez, a comunicação à distância. Posteriormente, outros
aparelhos, como o rádio e a televisão, introduziram a possibilidade
de transmissão de sons e imagens sem fio. Em seguida, novidades associadas
a melhorias nos sistemas de comunicação já existentes,
como a TV colorida, a transmissão via satélite e a digitalização
da transmissão do rádio e da televisão, passaram a fazer
parte do cotidiano. Mais recentemente, surge no cenário mundial uma forma
de comunicação até então inédita, qual seja
a comunicação entre computadores, viabilizada através da
Internet.
Enquanto o telefone
une apenas duas pessoas, de forma bidirecional (ambas recebem e enviam), e o
rádio e a TV unem uma pessoa a milhões de outras, unidirecionalmente
(a pessoa transmite a mensagem a milhões de pessoas mas não recebe
nenhum tipo de resposta das mesmas), a Internet permite que uma pessoa transmita
uma mensagem para milhares ou milhões de pessoas e receba, de cada uma
delas, uma resposta imediata. Além disso, ela permite, também,
a conexão simultânea a várias pessoas, em diferentes partes
do mundo, por meio de chats, ICQ ou videoconferências.
Na esteira dessas
inovações e transformações tecnológicas,
a discussão a respeito da psicoterapia online tem ganhado cada vez mais
destaque. Psicoterapia significa o tratamento pela palavra, pela mensagem, independentemente
do meio pelo qual a mensagem é veiculada. A vantagem da presença
do paciente diante de seu terapeuta está na possibilidade de observação
da linguagem não verbal. Contudo, até mesmo esse aspecto tem solução
através da videoconferência, já que ela possibilita tanto
o contato visual como o envio e recebimento da linguagem verbal e não
verbal. Tal solução tecnológica, de relativamente baixo
custo, constituiu o ponto de partida de discussões a respeito da viabilidade
e pertinência da realização de psicoterapia pela Internet.
No entanto, a psicoterapia
consiste em um procedimento de grande responsabilidade, em virtude de incidir
diretamente sobre o bem estar individual. Nesse sentido, antes que estas novas
modalidades de psicoterapia se tornem uma realidade, faz-se necessário
que elas sejam objeto de estudos e investigações conduzidas com
todo o rigor científico, de modo a permitir a análise em profundidade
dos inúmeros fatores que se encontram imbricados na adoção
de tais práticas. Uma via inicial de abordagem a tal temática
pode ser o estudo das crenças, atitudes e intenções associadas
à aprovação da psicoterapia online, na medida em que o
conhecimento desses fenômenos poderá trazer subsídios valiosos
às futuras discussões acerca da viabilidade dessa forma de psicoterapia.
Adicionalmente, a realização de uma investigação
dessa natureza, usando a Internet como ferramenta de coleta de dados, poderá
contribuir, também, para o aprofundamento do debate acerca da pertinência
de se realizarem pesquisas online. Por fim, a pesquisa do tema referido poderá
servir para a ampliação da discussão sobre a questão
da consistência entre atitude e comportamento.
Em face dessas considerações,
a presente dissertação teve como principal objetivo a análise
da consistência entre crenças, atitudes e intenções
associadas à aprovação da psicoterapia online, utilizando
a teoria da ação racional de Fishbein
e Ajzen (1975) como referencial teórico. Para atender a tal finalidade,
ela encontra-se estruturada em uma primeira parte, na qual são revisados
os principais fundamentos teórico-empiricos subjacentes ao estudo das
atitudes - com destaque para aqueles orientados pela teoria da ação
racional - e da realização de psicoterapia online. Tais pressupostos
são, em seguida, retomados e articulados, derivando-se daí a problemática,
assim como as hipóteses que nortearam a investigação. Na
segunda parte da dissertação, são apresentados, sucessivamente,
o método de coleta de dados adotado nas duas diferentes fases da investigação,
os resultados obtidos e as principais interpretações por eles
suscitadas. À guisa de conclusão, discutem-se as principais implicações
desses resultados, no que tange à prática futura de pesquisas
e práticas psicoterápicas via Internet.
I. AS ATITUDES
1.1. O Conceito de Atitude Voltar
O termo atitude foi introduzido na literatura psicológica por Thomas
e Znaniecki, em 1918, para explicar as diferenças de comportamento observadas
entre fazendeiros poloneses e norte americanos (Stahlberg
& Frey, 1995). A partir de então, tal constructo passou a centralizar
as atenções dos psicólogos, a ponto de ser considerado
por Allport, em 1935, como um dos mais indispensáveis à Psicologia
Social (Lima, 1990), além de ter suscitado uma grande
quantidade de publicações, nos diversos periódicos especializados:
Montmollin, entre 1970 e 1979, encontrou mais de 20.000 publicações
que apresentavam no título o termo atitude e Rajechi, já na década
de 80, somente entre 1983 e 1988, encontrou mais de 14.000 títulos, usando
o mesmo critério (Alexandre, 1996). Mais recentemente,
embora as atitudes tenham saído do foco principal das atenções
dos psicólogos sociais, elas, ainda assim, continuam sendo um importante
tema de estudo.
Face ao destaque que o constructo recebeu, inúmeras foram as definições
oferecidas para ele, ao longo do século XX. Thurstone (1946, citado por
Brigham, 1991), por exemplo, considerou a atitude como a intensidade de afeto
positivo ou negativo dirigido a um objeto psicológico. Aproximadamente
na mesma época, Doob e Lott (1947, citado por Fishbein & Ajzen, 1975)
conceitualizaram a atitude como uma resposta avaliativa em relação
a um objeto. Rodrigues (1996), a partir da compilação
de várias definições, abordou as atitudes como uma
organização duradoura de crenças e cognições,
em geral dotada de carga pró ou contra um objeto social definido, que
predispõe a uma ação coerente com as cognições
e afetos relativos a esse objeto (p.345).
Para Eagly
e Chaiken (1998), a atitude consiste em uma tendência psicológica
que expressa a avaliação de uma entidade específica, com
algum grau de favorabilidade ou desfavorabilidade. As autoras comentam, ainda,
que as pessoas demonstram atitudes quando amam ou odeiam algo ou alguém,
objetos concretos, organizações, idéias ou ideais. Tais
atitudes, entretanto, expressam-se não apenas através do ódio
e da paixão, mas também através de graus intermediários
de emoção, como a atração ou repulsa, as preferências
ou aversões e o interesse ou desprezo. A partir dessas tendências,
diz-se, então, que uma pessoa tem atitude positiva se aprova o objeto
de sua atitude e negativa, se o reprova.
Segundo Rodrigues
(1999), a maioria dos estudiosos das atitudes considera que tal constructo é
composto por três componentes ou dimensões: o afeto, a cognição
e o comportamento. A dimensão cognitiva contém os pensamentos,
as informações e as crenças que uma pessoa tem a respeito
do objeto de sua atitude; a afetiva associa-se às emoções
que a pessoa apresenta em relação ao objeto de sua atitude e a
comportamental refere-se ao que a pessoa faz em relação a este
objeto. Essas dimensões constituem, assim, os meios pelos quais se infere
a atitude, já que ela, por ser um constructo puramente interno, não
é diretamente observável.
Eagly e Chaiken (1993),
porém, mostram-se mais adeptas de um modelo unidimensional, que considera
apenas a dimensão avaliativo-afetiva na conceituação da
atitude. Tal contraposição entre um modelo tridimensional e um
modelo unidimensional na caracterização das atitudes tem marcado
a evolução deste conceito e orientado o debate acerca da consistência
entre atitudes e comportamento, que será aprofundado em uma seção
posterior do presente trabalho.
1.2. A Formação
das Atitudes Voltar
As teorias desenvolvidas para explicar a formação de atitudes
podem ser subdivididas em comportamentais e cognitivas, sendo que as primeiras
apoiam-se nos princípios behavioristas de observação do
comportamento, enquanto as segundas investigam a formação das
atitudes a partir de processos internos, não diretamente observáveis.
Os enfoques baseados
nos postulados comportamentais partem do pressuposto de que novos comportamentos
podem ser aprendidos, a partir de outros já estabelecidos. Nesse sentido,
explicam a formação de atitudes com o apoio dos princípios
de condicionamento clássico e operante. Destacam-se também, nesse
grupo, a teoria da autopercepção de Bem e a hipótese da
mera exposição de Zajonc.
O princípio
do condicionamento clássico afirma que um estímulo condicionado,
quando temporalmente e repetitivamente relacionado a um estímulo desconhecido
ou indiferente, passa a condicioná-lo também, tornando-o assim,
um estímulo condicionado a uma determinada resposta (Fishbein
& Ajzen, 1975). Assim, por exemplo, uma pessoa que trabalhe perto de uma
igreja e, ao ouvir os sinos do meio-dia, costuma sair para almoçar, passará,
depois de um certo tempo, a sentir fome quando ouvir os badalos desse sino,
ainda que antes do meio-dia.
Já o princípio
do condicionamento operante preconiza que uma resposta pode ser reforçada
com a finalidade de se obter ou evitar um comportamento. O condicionamento operante
é portanto uma instrumentalização do princípio de
condicionamento. Assim, uma mãe, conhecendo o gosto do filho pequeno
por chocolate, poderá privá-lo ou recompensá-lo com o chocolate,
para que ele se comporte do modo como ela quer, até que ele se habitue
e não mais precise da recompensa ou da punição. O estímulo
incondicionado - o chocolate -, ao ser oferecido como recompensa por uma tarefa
bem feita (como arrumar o quarto, por exemplo), reforça tal comportamento.
Por outro lado, a privação do chocolate (devido a uma desobediência
por exemplo) serve como punição para este comportamento indesejável.
Ambas as situações apresentam, portanto, um estímulo incondicionado
- o chocolate - e um resultado, qual seja o bom comportamento por parte da criança.
A utilização do estímulo incondicionado para obtenção
do comportamento desejado constitui, então, o processo de condicionamento
operante (Fishbein& Ajzen, 1975).
Tanto o condicionamento
clássico quanto o operante, ao associarem objetos antes desvinculados,
criam necessariamente um processo afetivo-avaliativo no indivíduo condicionado.
No condicionamento clássico, se a resposta condicionada for positiva,
o estímulo condicionado suscitará uma atitude favorável,
e, se for negativa, uma atitude desfavorável. No condicionamento operante,
a recompensa se reverterá em uma atitude favorável a quem aplica
o estímulo e, a punição, em uma atitude negativa em relação
a quem a aplica (Fishbein & Ajzen, 1975). Assim, por exemplo, se a mãe
sempre der a recompensa e o pai a punição, ocorrerá uma
aversão ou uma atitude negativa em relação ao pai e uma
preferência ou atitude positiva em relação à mãe.
A teoria da autopercepção,
assim denominada por Bem (1965, citado por Eagly 1993), originou-se da teoria
da dissonância cognitiva, mas, apesar de sua dimensão cognitiva,
ela é parcialmente apoiada em princípios comportamentais. De acordo
com ela, as atitudes se formam a partir da observação do próprio
comportamento e das circunstâncias nas quais ele ocorre, como forma de
afirmar algo a si mesmo e aos outros. Assim, uma pessoa que é considerada
desastrada poderá passar a se comportar ou a valorizar o comportamento
que confirma sua imagem de desastrada, caso isso facilite sua aceitação
no grupo e, consequentemente, diminua o sofrimento causado por sua rejeição.
Em outras palavras, mesmo que a idéia de ser desastrado seja repulsiva,
ela é compensada pela aceitação que o indivíduo
obtém no grupo, ao aceitar o rótulo de desastrado. Esta pessoa
passa então a se considerar desastrada, a se perceber como desastrada
e a assumir a atitude de desastrada.
A hipótese
da mera exposição, desenvolvida por Zajonc (1968, citado por Eagly,
1993), preconiza que as atitudes se formam a partir da simples apresentação
de um objeto às pessoas. Tal hipótese foi comprovada pelo autor
ao mostrar, para diferentes grupos de pessoas, três diferentes tipos de
estímulos (palavras turcas a respeito das quais nada era possível
entender, caracteres chineses e fotografias inéditas), em freqüências
variadas (nenhuma vez, duas, cinco, dez e vinte e cinco vezes) e, em seguida,
perguntar a essas pessoas como elas julgavam o significado daquelas palavras
e fotos só pela aparência, em termos de elas representarem algo
bom ou ruim. Os resultados mostraram que quanto mais se expunha um objeto, mais
as pessoas se manifestavam favoravelmente a ele, fosse ele relacionado a palavras
turcas, caracteres chineses ou fotografias.
Cumpre ressaltar,
porém, que a relação entre a atitude e o número
de apresentações não é linear, já que o excesso
de estimulações pode até mesmo vir a provocar um efeito
contrário, levando as pessoas a criarem aversão ao estímulo.
Existe assim um ponto ideal no qual a favorabilidade da atitude é maximizada
e a partir do qual ela passa a decrescer, conforme descoberto em outros estudos
que utilizaram essa mesma técnica. Por outro lado, Bornstein (1974, citado
por Eagly, 1993), ao realizar uma meta-análise dos estudos sobre o assunto,
concluiu que, além no número de apresentações, outras
variáveis associadas à apresentação dos estímulos
proporcionam uma maximização da favorabilidade da atitude. Assim
é que estímulos complexos mostram-se superiores aos estímulos
simples e, estímulos com duração de 1,5 segundos, melhores
que os de 5 segundos. Em síntese, a mera exposição, apesar
de aparentemente simples, pode ser potencializada com diferentes artifícios,
o que a torna um recurso complexo e rico para a manipulação da
formação de atitudes.
As teorias cognitivas
apoiam-se no princípio de consistência cognitiva, que se tornou
popular nos anos 50 e 60, e que postula que as pessoas almejam a coerência
entre as crenças sobre determinados objetos e o valor afetivo que eles
possuem. Nesse sentido, quando ocorrem inconsistências ou desequilíbrios
entre tais crenças e afetos, as pessoas procuram reduzi-los ou compensá-los
através da formação de novas atitudes (Himmelfarb,
1993). As principais teorias cognitivas sobre a formação das atitudes
são a teoria do equilíbrio de Heider e a teoria da dissonância
cognitiva de Festinger.
A teoria do equilíbrio
de Heider apoia-se em um modelo triádico, que envolve a relação
entre duas pessoas e um objeto. O sujeito cuja atitude se estuda é denominado
P, a pessoa em relação a quem P possui uma atitude é denominado
O e o objeto em relação ao qual tanto P como O apresentam atitudes
independentes é denominado X. Admitindo-se apenas as atitudes de P em
relação a O e X e a atitude de O em relação a X,
torna-se possível a derivação de oito diferentes configurações
para a tríade, sendo quatro delas consideradas estáveis ou equilibradas
e quatro consideradas instáveis ou desequilibradas. Como todas as relações
tendem para o equilíbrio, a teoria prevê que as situações
desequilibradas, por gerarem desconforto, tendem a se modificar, de modo a se
tornarem equilibradas, o que implicará no surgimento de novas atitudes
capazes de equilibrar um estado desconfortável (Himmelfarb
& Eagly, 1974). Assim, por exemplo, quando P é favorável a
um determinado candidato à presidência (O) que defende a redução
de impostos (X), idéia vista favoravelmente por P, temos uma situação
equilibrada, já que P é favorável a uma pessoa que também
defende a sua idéia. Por outro lado, se esse candidato à presidência
(O) fosse favorável ao aumento de impostos (X), teríamos uma situação
desequilibrada, já que P seria favorável a uma pessoa (O) que
defende uma idéia contrária a sua (X). Para resolver esse desequilíbrio,
P pode mudar de candidato ou pode passar aceitar a necessidade de aumento dos
impostos, formando assim uma nova atitude. Suponhamos agora uma terceira situação,
na qual surge um outro candidato à presidência, sobre quem P não
possui nenhuma atitude, por ser desconhecido. Ao ser informado que seu salário
seria aumentado, caso esse candidato desconhecido fosse eleito, P passa a apoiá-lo,
porque seu aumento de salário é mais importante que sua convicção
político-partidária. P passa, assim, a ter uma atitude positiva
ao candidato que antes lhe era indiferente em virtude de sua favorabilidade
a X, isto é, P forma uma atitude positiva sobre O' (o candidato desconhecido).
A teoria da dissonância
cognitiva de Festinger afirma que os estados dissonantes são desconfortáveis
e tendem à mudança, enquanto os estados consonantes são
confortáveis e tendem à estabilidade. A dissonância é
portanto um estado psicológico de tensão que motiva a pessoa a
agir no sentido de diminuir essa tensão, o que pode ser obtido alterando-se
a importância dos elementos que constituem a situação dissonante,
adicionando-se a ela elementos positivos ou diminuindo-se a importância
dos negativos. Assim, por exemplo, um atleta, que perca uma competição,
pode pensar que não ganharia nada além de aplausos, então
não perdi grande coisa, isto é, pode desenvolver uma atitude
de desvalorização da vitória, tornando assim a cognição
da perda menos desconfortável e diminuindo, deste modo, sua dissonância
(Himmelfarb & Eagly, 1974).
As diversas teorias
desenvolvidas para a explicação do processo de formação
das atitudes indicam que estamos longe de encontrar um modelo único que
explique todas as possíveis circunstâncias através das quais
as atitudes se formam. Assim é que Rodrigues
(1996) sugere que o processo de formação de atitudes seja abordado
ecleticamente, de modo a que as contribuições das diversas linhas
permitam uma integração harmoniosa, capaz de explicar satisfatória
e empiricamente os mecanismos subjacentes à formação das
atitudes.
1.3 Funções
das Atitudes Voltar
Na década de
cinqüenta, dois grupos independentes de pesquisadores apresentaram seus
pontos de vista a respeito das funções das atitudes: o grupo de
M. Brewster Smith e o grupo de Daniel Katz (Eagly &
Chaiken, 1993).
O grupo de Smith estudou
as atitudes a partir das opiniões expressas, procurando detectar a utilidade
destas manifestações. De acordo com esta perspectiva, portanto,
as opiniões assemelhavam-se às atitudes e exerciam uma função
mediadora entre as demandas internas e as demandas do ambiente externo, isto
é, serviam para adaptar o indivíduo à sociedade (Rodrigues,
1996). Nesse sentido, as funções das atitudes identificadas por
esse grupo foram as de avaliação do objeto da atitude, ajustamento
social e externalização.
A função
de avaliação do objeto diz respeito ao fato de as atitudes permitirem
às pessoas avaliarem os estímulos (objetos) quanto às suas
conseqüências, tendo como referência suas atitudes e valores
preestabelecidos, o que lhes permite empreenderem ações coerentes
com tais valores e atitudes anteriores (Eagly & Chaiken,
1998). Esta função das atitudes serve assim para situar o indivíduo
de forma realista e lógica no contexto do seu ambiente.
A função
de ajustamento social associa-se ao fato de as atitudes servirem para harmonizar
as relações sociais. Desse modo, em situações de
conflito que podem ter repercussões indesejáveis, o indivíduo
tende a adotar atitudes que possam evitar tais situações. Assim,
por exemplo, em um encontro importante, um indivíduo poderia causar grande
mal estar se decidisse expressar sua opinião logo após alguém
ter expresso uma opinião diametralmente oposta a sua. Contudo, se ele
considerar que naquele momento o bem estar é mais importante do que a
manifestação de sua opinião, ele pode omitir-se ou manifestar-se
superficialmente (Rodrigues, 1999).
A função
de externalização ocorre quando certos acontecimentos contrariam
a expectativa do sujeito, o que faz com que uma nova atitude se forme, com o
objetivo de diminuir a tensão gerada por aquela frustração.
Assim, por exemplo, um sujeito que não conseguiu emprego em uma multinacional,
apesar de querer muito isto, pode acabar desenvolvendo uma atitude negativa
em relação a essas empresas, como forma de encobrir e substituir
o rancor decorrente do fato de nunca ter sido contratado por elas. Em outras
palavras, para conformar-se à situação de ter sido contrariado
em suas expectativas, o indivíduo exterioriza sua nova atitude contra
as multinacionais, aliviando desta forma sua tensão interna, isto é,
o fato de ele pensar que as multinacionais não valem mesmo à pena
lhe propicia um estado mais confortável e equilibrado.
Para Katz, as atitudes
cumprem funções utilitárias e cognitivas, bem como funções
de defesa do ego e de expressão de valores (Eagly
& Chaiken, 1993). A função utilitária, também
denominada instrumental ou de ajustamento, baseia-se no princípio comportamental
de que as pessoas buscam a recompensa e evitam a dor. Nesse sentido, uma das
funções das atitudes seria a obtenção de benefícios
pessoais, isto é, elas seriam úteis para o alcance de um determinado
fim. Logo, uma pessoa que deseje obter dinheiro ou outras oportunidades na vida
pode adotar atitudes que levem a essa finalidade, não por considerarem
positivo o objeto de sua atitude, mas por almejarem o objetivo que está
além dessa atitude (Eagly & Chaiken, 1998).
A função
cognitiva diz respeito ao fato de as atitudes permitirem que os indivíduos
simplifiquem a complexa rede de informações ambíguas que
provêm de seu meio ambiente e as interprete de forma coerente, suprindo,
assim, a necessidade humana de ter um conhecimento estável e organizado
a respeito do ambiente (Eagly & Chaiken, 1993). Assim, por exemplo, os indivíduos
tendem a manter atitudes favoráveis às pessoas desconhecidas que
andam de terno e gravata, por acreditarem que elas exibem um grau de instrução
mais elevado, sendo portanto mais indicadas para se pedir uma informação
na rua. Tal atitude serve assim para abreviar o tempo que a pessoa levaria para
escolher alguém na rua para pedir informações, isto é,
simplifica a ação de pedir informações a todas as
pessoas que passam.
A função
de defesa do ego observada por Katz é semelhante à função
de externalização preconizada por Smith (Eagly
& Chaiken, 1993), isto é, para ambos os autores as atitudes por vezes
se formam com o intuito de proteger os auto-conceitos contra ameaças
externas. Já a função de expressão de valores está
ligada à função de adaptação social, isto
é, pela manifestação das atitudes as pessoas expressam
seus valores, permitindo que seus semelhantes os reconheçam e formem
grupos de convivência harmônicos e estáveis. Um ambientalista,
por exemplo, é uma pessoa simpática a todas as iniciativas que
diminuam a agressão ao meio ambiente e contrária às que
o agridem. Assim, as pessoas educadas a preservar e a não sujar o meio
ambiente terão a simpatia desse ambientalista, que procurará delas
se aproximar, ao contrário daqueles que não se comportam de modo
a preservar a natureza.
Os grupos de Smith
e Katz, ao estudarem as funções das atitudes, desvendaram, em
última análise, o valor heurístico das atitudes. Em outras
palavras, o fato de as atitudes nos permitirem adotar o comportamento mais adequado
a cada experiência vivida funciona como um atalho que abrevia o tempo
de processamento das informações necessárias à manifestação
das condutas sociais.
1.4 As Atitudes sob a Perspectiva da Teoria da Ação Racional
1.4.1 A Teoria da
Ação Racional Voltar
A teoria da ação racional, formulada por Fishbein
e Ajzen (1975), considera que as pessoas comportam-se de forma racional, avaliando
o que têm a perder e a ganhar com a manifestação de suas
atitudes. Muitas vezes, fazer o que se deseja pode proporcionar uma satisfação
inicial, mas posteriormente acarretar conseqüências prejudiciais
e mais intensas que os benefícios obtidos, o que faria com que a satisfação
obtida deixasse de valer à pena. Esse modo racional de avaliar cada decisão
é que deu à teoria o nome de teoria da ação racional,
na medida em que ela pressupõe uma avaliação racional do
comportamento a cada passo (D'Amorim, 1996).
A descrição
dos principais pressupostos que dão sustentação à
referida teoria será orientada pela Figura 1, que apresenta o esquema
geral da mesma, no que diz respeito às variáveis que a compõem
e ao modo pelo qual elas interagem entre si. Num primeiro momento, essas variáveis
serão definidas, para depois se proceder à elucidação
do processo por meio do qual elas interagem.

Linha pontilhada - possível explicação
para as relação observada entre as variáveis externas e
o comportamento.
Linha cheia - relações teoricamente estáveis que ligam as crenças
ao comportamento.
Figura 1: O modelo da Teoria da Ação Racional (Eagly & Chaiken, 1993).
As variáveis externas
da teoria dividem-se em demográficas, atitudes gerais e traços
de personalidade e exercem influência sobre as quatro variáveis
básicas do modelo, podendo, entretanto, apresentar relevância maior
ou menor de acordo com cada estudo específico. Assim, por exemplo, as
faixas mais elevadas de idade tendem a ser mais conservadoras e consequentemente,
a idade poderá interferir em determinadas atitudes. Por outro lado, a
diferença quanto ao sexo pode ser irrelevante ou determinante das atitudes.
Desse modo, a opinião quanto ao controle inflacionário sofre pouca
influência do sexo, já que todos querem inflação
baixa, porém a preocupação com a prevenção
de mioma será provavelmente mais acentuada nas mulheres, uma vez que
os homens não são atingidos por essa patologia (D'Amorim,
1996).
As atitudes gerais
prévias também costumam influenciar as atitudes novas. Assim,
por exemplo, quando se tem uma atitude muito positiva em relação
a um determinado colégio, a tendência será a de se ter,
concomitantemente, uma atitude positiva em relação aos professores
e alunos desse colégio, mesmo antes de se ter maiores informações
individuais sobre essas pessoas. Logo, as atitude já existentes influenciam
as atitudes que se formam posteriormente.
Os traços básicos
de personalidade constituem os hábitos e os valores de uma pessoa, caracterizando-se
em tendências que se encontram presentes na formação de
uma crença ou na sua avaliação. Nesse sentido, as pessoas
que apresentam como característica de personalidade a tendência
de buscar novidades terão mais facilidade em aceitar idéias inovadoras,
ainda que elas não apresentem vantagens imediatas. As variáveis
externas encontram-se, portanto, na base de sustentação das variáveis
da teoria da ação racional, não podendo ser ignoradas no
processo de compreensão da mesma, pois exercem influência direta
sobre seus elementos básicos (D'Amorin, 1996).
As variáveis
ou elementos básicos do modelo englobam as crenças comportamentais
(CC), a avaliação dessas crenças (AC), as crenças
normativas (CN) e a motivação (M). A crença comportamental
é a base cognitiva da atitude, isto é, a informação
que um indivíduo tem a respeito de um determinado objeto, independentemente
de ele ser favorável ou desfavorável a este objeto. Tais crenças
se formam a partir das informações relevantes disponíveis
ao indivíduo, o que envolve tanto as informações teóricas
como as experiências vividas. Desse modo, a crença em um objeto
dificilmente é constituída por apenas uma informação,
mas por um conjunto de informações. Logo, faz-se necessário
admitir que para cada atitude existem várias crenças, cada uma
com sua respectiva favorabilidade. Assim, para se conhecer a atitude de uma
pessoa a respeito de um determinado tema, é preciso conhecer todas as
crenças relevantes dessa pessoa a respeito deste tema (D'#amorin, 1995).
A avaliação
positiva ou negativa das crenças ou cognições (AC) constitui
uma outra variável da teoria da ação racional que, apesar
de simultânea à cognição, dela se distingue conceitualmente,
muito embora por vezes seja quase impossível desvinculá-las. Nesse
sentido, para cada cognição há uma afeição,
isto é, uma aceitação ou rejeição exclusiva
àquela crença. Uma atitude, então, pode teoricamente existir
sem a avaliação que lhe corresponda, porém não pode
existir sem uma crença. Contudo, na composição da atitude,
a crença isoladamente não tem sentido, sendo imprescindível
sua avaliação. Em síntese, para a teoria da ação
racional não há atitude (AT) sem a avaliação da
crença, já que é a crença avaliada que resultará
na atitude (D'Amorin, 1996).
A atitude resulta,
assim, do somatório dos produtos das crenças sobre um objeto por
suas respectivas avaliações (DAmorin &
Vera, 1996), isto é,
AT = SCCi * ACi
em que AT representa a atitude,
CC, as crenças comportamentais, i, o fato de que existem várias
crenças comportamentais, S, o fato de que todas elas estão sendo
somadas e AC as avaliações das respectivas crenças indicadas
pela mesma letra i, numa demonstração da correspondência
entre a crença e a avaliação.
Como exemplo, vejamos
a questão do aborto, fenômeno que se caracteriza pela interrupção
da gestação antes da hora adequada e morte do feto, podendo isso
ocorrer de forma natural ou provocada. A ocorrência natural do aborto
não suscita aprovação ou desaprovação, já
que não é possível ser contra ou a favor da natureza, cabendo
ao indivíduo tão somente adaptar-se aos acontecimentos. O aborto
provocado, no entanto, significa que uma gestação transcorria
naturalmente e foi interrompida artificialmente com a finalidade de matar o
feto, cabendo aqui, então, a aceitação ou rejeição
de tal prática. A condenação ou aprovação
(avaliação) do aborto intencional (crença) constitui, assim,
a atitude em relação ao aborto. Já com relação
ao aborto natural não é possível ser contra ou a favor
e, consequentemente não haverá atitude em relação
a este fato.
A crença normativa
(CN) diz respeito ao que as pessoas importantes para o indivíduo julgam
que ele deva fazer. Surge aqui a figura do referente, isto é, pessoas
que exercem influência no comportamento do indivíduo, razão
pela qual ele se preocupa em apresentar para elas um determinado tipo de comportamento.
Assim como a crença comportamental, a crença normativa também
é uma cognição, isenta portanto de carga afetiva. Como
ela se refere entretanto a crenças sobre o que os referentes pensam a
respeito do indivíduo, não faz sentido dizer que exista uma favorabilidade
ou desfavorabilidade em relação a essas crenças.
A motivação
(M) está para a crença normativa assim como a avaliação
está para a crença comportamental. Desse modo, a crença
comportamental, associada à avaliação, resultam na atitude,
enquanto a crença normativa, associada à motivação,
resultam na norma subjetiva. Em outras palavras, cada uma das cognições
que configuram a crença normativa, multiplicada pela motivação
em cumprir a referida crença, conduzirá à norma subjetiva
(NS) (D'Amorin, 1995), isto é,
NS = SCNj * Mj
em que NS é a norma
subjetiva, CN, as crenças normativas, a letra j, a indicação
de que existem várias crenças normativas, S, a indicação
do somatório do produto das crenças normativas pelas respectivas
motivações e M, a motivação.
Como exemplo, pode
ser citada a situação de um indivíduo que deseja sair com
os colegas para tomar chopp após o trabalho. Contudo, uma das pessoas
que está indo é mal vista pelo seu chefe, além de que sua
mulher não gosta que ele se atrase para o jantar em família. Nessa
situação, tem-se então vários referentes: a esposa,
o chefe e os amigos. A atitude do indivíduo é favorável
a tomar o chopp, porque ele gosta da bebida e da companhia desses amigos, mas
os referentes não gostam. A norma subjetiva é, assim, contrária
à atitude.
A norma subjetiva
regula, portanto, a atitude comportamental, pois nem sempre o que se quer fazer
é o que se deve fazer. Desse modo, a intenção de comportamento
caracterizar-se-á pelo resultado da interação entre a atitude
comportamental e a norma subjetiva. A atitude mostra o que o indivíduo
faria se seu ato não tivesse nenhum conhecimento ou repercussão
social, mas a atitude, combinada com a norma subjetiva, resultará no
ato mais adequado para cada pessoa em cada circunstância. Em síntese,
dependendo da intensidade da atitude e da norma subjetiva, a intenção
de comportamento poderá seguir em uma ou em noutra direção,
isto é, nesse embate, ela representará o que for mais predominante
no binômio atitude / norma subjetiva (D'Amorin &
Vera, 1996).
A intenção
de comportamento sofre ainda a influência dos pesos associados à
atitude e à norma subjetiva. Assim é que duas pessoas podem ter
a mesma atitude em relação a um objeto, ou seja, as mesmas informações
e a mesma direção das avaliações (contra ou a favor),
bem como os mesmos referentes e motivações, mas os pesos vinculados
à atitude e à norma subjetiva podem levar a comportamentos diferentes.
Deste modo, dois irmãos podem desejar cursar engenharia, mas as condições
financeiras da família talvez não permitam que o curso seja concluído,
embora ambos tenham condições de iniciar a faculdade. Perante
tal situação, o irmão mais conservador decide trabalhar
antes de começar a faculdade para que depois, com o dinheiro acumulado,
tenha segurança para terminar a faculdade. Já o outro prefere
arriscar-se a começar logo a faculdade para, caso tenha problemas depois,
pensar em como agir. A atitude comportamental (a vontade de cursar a faculdade)
e a norma subjetiva (não ter dinheiro para cursar a faculdade) de ambos
é igual, mas o peso que um dá à segurança em terminar
a faculdade de engenharia é maior num caso do que no outro. Há
portanto pesos diferentes para as mesmas avaliações, o que irá
levar os dois irmãos a apresentarem intenções de comportamento
diferentes. Os pesos, como mostra a Figura 1, dependem das variáveis
extrínsecas e não estão submetidos às demais variáveis,
sendo determinados empiricamente (D'Amorin, 1996).
A intenção
de comportamento é a variável que mais se aproxima do comportamento,
e assim, uma pessoa com uma determinada intenção estará
pronta para agir e só não o fará se for impedida por algum
acontecimento externo e alheio aos processos psicológicos acima descritos,
como um acidente, por exemplo. Por essa razão, a intenção
de comportamento é considerada por Ajzen e Fishbein como aproximadamente
o comportamento propriamente dito, caracterizando-se por refletir a atitude
e a norma subjetiva, com seus respectivos pesos (D'Amorim,
1995). A teoria da ação racional pode então ser resumida
na seguinte equação:
C @ I = AT + NS = b1AT + b2NS = b1(S CC * AC) + b2 (S CN * M)
A teoria da ação
racional vem obtendo mais sucesso na predição do comportamento
a partir da atitude que as teorias vistas anteriormente, muito embora os estudos
nem sempre conduzam a resultados unânimes. Por outro lado, ela é
versátil, podendo ser aplicada em várias áreas da psicologia
social, sempre com a mesma técnica o que lhe dá maior fidedignidade.
Posteriormente à
elaboração da teoria da ação racional, Ajzen (1988,
citado por Armitage & Conner, 1999) formulou a teoria
do comportamento planejado. No entanto alguns trabalhos comparativos evidenciaram
que a referida teoria não tem se mostrado superior à teoria da
ação racional, no que diz respeito à predição
do comportamento (Albarracin, Johnson, Fishbein &
Muellerleile, 2001; Sutton, McVey & Glanz, 1999).
Desse modo, a teoria da ação racional foi adotada como referencial
teórico da presente dissertação, o que tornou desnecessária
a apresentação pormenorizada das variáveis acrescentadas
ao modelo do comportamento planejado.
1.4.2. A Medida na Teoria
da Ação Racional Voltar
De acordo com D'Amorim (1996), o método básico
de medição da atitude pela teoria da ação racional
consiste na utilização de questionários elaborados para
esse fim. Como a avaliação da atitude isoladamente não
tem sentido nesse modelo teórico, as demais variáveis relacionadas
- a intenção de comportamento e a norma subjetiva - também
são medidas no mesmo instrumento.
Quando se quer medir
essas variáveis em uma pessoa ou em um grupo, é necessário
especificar o objeto em relação ao qual elas se referem. Por exemplo,
para se saber qual a atitude relativa a uma ideologia, a um determinado governante
ou a uma lei, é necessário ter um questionário exclusivamente
voltado para aquela ideologia, aquele governante ou aquela lei. Assim, a cada
pesquisa é preciso construir o instrumento específico, diferentemente
do que ocorre com o estudo da inteligência, da personalidade ou das emoções,
para as quais existem os mesmos instrumentos há décadas. Por causa
desta particularidade, os autores da teoria da ação racional preocuparam-se
em elaborar uma técnica de construção de questionários,
padronizando assim o método de pesquisa a ser adotado na testagem empírica
de hipóteses fundamentadas no referido modelo teórico.
A primeira etapa da
construção do instrumento é a escolha do tema de pesquisa
e a realização de um levantamento inicial junto a pessoas pertencentes
à população na qual será feita a pesquisa. Este
levantamento de forma aberta indaga sobre as vantagens e as desvantagens do
objeto da pesquisa, independentemente da aceitação ou rejeição
do entrevistado em relação ao tema, podendo as respostas serem
gravadas ou anotadas. Pergunta-se também que pessoas ou instituições
(referentes) são importantes para o entrevistado, ao emitir uma opinião,
isto é, que poderiam influenciar na sua opinião. O número
de pessoas necessárias nessa fase é puramente empírico.
Enquanto estiverem surgindo mais respostas novas, o levantamento precisa continuar
sendo feito. Quando não surgirem respostas novas, em cinco entrevistas
seguidas, esta etapa poderá ser interrompida.
O conteúdo
das respostas sobre as vantagens, desvantagens e referentes são analisadas
separadamente e ordenadas por freqüência, sendo os aspectos mais
freqüentes considerados como crenças modais salientes, as quais
constituirão os itens do instrumento de pesquisa. O critério para
esta definição é o número de vezes que cada resposta
é citada e, assim, todas as crenças citadas em 3/4 das respostas
são consideradas modais.
Na segunda fase, constrói-se
o questionário com escalas de sete pontos, variando em números
inteiros de +3 a -3, a serem utilizadas para a mensuração das
variáveis em estudo, quais sejam: a intenção de comportamento,
as crenças comportamentais, a avaliação das crenças
comportamentais, as crenças normativas e a motivação para
aderir às crenças normativas. Já a atitude é analisada
através de uma pergunta com três alternativas de resposta, isto
é, os participantes julgam-na quanto ao fato de ela ser útil ou
inútil, boa ou má, agradável ou desagradável, com
todas elas variando de +3 a -3.
No julgamento dos
itens associados às crenças comportamentais modais as opções
de resposta variam de provável (+3) a improvável (-3). A soma
algébrica das resposta fornecerá o resultado numérico da
crença comportamental. Na avaliação das crenças
comportamentais, repetem-se as questões apresentadas para medir as crenças
comportamentais, mas as respostas variam de bom (+3) a mau (-3). Para a mensuração
das crenças normativas são utilizados os itens extraídos
dos referentes e as alternativas de respostas vão de provável
(+3) a improvável (-3). Da mesma forma, a motivação em
relação à crença normativa é mensurada perguntando-se
o quanto os referentes influenciariam na tomada individual de um comportamento,
com as respostas variando de provável (+3) a improvável (-3).
As questões
do instrumento obedecem a uma determinada ordem de apresentação,
que se inicia com a mensuração de um único item sobre a
atitude, sendo esta considerada uma medida direta, já que a mensuração
indireta da atitude ocorre por meio dos componentes da atitude. Em seguida vêem
as perguntas sobre as crenças comportamentais, sobre a avaliação
dessas crenças, sobre as crenças normativas e sobre a motivação
para acatá-las. Por fim, como item único, apresenta-se a questão
sobre a intenção de comportamento. Com exceção dos
itens únicos (atitude e intenção comportamental), o número
de itens de cada uma das partes dependerá do número de aspectos
levantados na primeira fase. O referido método vem sendo repetido nos
estudos cuja base teórica é a teoria da ação racional
sem apresentar maiores problemas, o que comprova sua praticidade e utilidade.
1.4.3. A Consistência
entre Atitude e Comportamento Voltar
A possibilidade de previsão do comportamento a partir da atitude continua
sendo um dos principais focos de estudo da psicologia social, o que pode ser
verificado pela grande quantidade de publicações atuais sobre
o assunto. Face a esse interesse, a teoria da ação racional, ao
proporcionar um modelo que permite correlacionar, de forma consistente, a atitude
e o comportamento, tem sido usada com freqüência na explicação
e descrição do comportamento nas mais variadas situações
(Ajzen, 2001).
Historicamente, o estudo da consistência entre comportamento e atitude
pode ser dividido em três fases. A primeira questionava se seria possível
prever o comportamento a partir da atitude. A segunda, marcada pela influência
da teoria da ação racional de Fishbein e Ajzen, melhorou a previsibilidade
do comportamento a partir da atitude. A terceira fase caracterizou-se pelo predomínio
dos modelos comportamentais (Channouf, Py & Somat,
1996).
A primeira fase sofreu grande influência do estudo de LaPiere, realizado
nos EUA no princípio da década de 1930, no qual ficou patente
uma nítida contradição entre a atitude verbalizada e o
comportamento realizado. No referido estudo, LaPiere viajou pelos EUA com um
casal de chineses, freqüentando restaurantes e hotéis. Finalizadas
as viagens, telefonou para os locais em que havia estado e perguntou se aceitariam
um casal de chineses. Muitos estabelecimentos disseram que se recusariam a aceitá-los,
quando na prática não o fizeram (apenas um estabelecimento recusou-se),
evidenciando assim uma contradição entre atitude e comportamento,
isto é, uma impossibilidade de se prever o comportamento a partir da
atitude (Stalberg & Frey, 1995). Corroborando tal
posição, Wicker (1969, citado por Channouf,
Py & Somat, 1996), realizando uma revisão de 42 estudos a respeito
da congruência entre atitude e comportamento, concluiu que menos de 10%
das correlações entre atitude e comportamento eram congruentes.
Na segunda fase das investigações acerca das relações
entre atitude e comportamento, a pergunta básica era: "quando e
em que condições o conhecimento da atitude permite inferir a manifestação
de um comportamento?" (Channouf, 1996, p.56). Nesse sentido, um grande
número de estudos tem procurado responder a essa pergunta, orientados
pela teoria da ação racional, sendo que a maioria dessas pesquisas
têm se voltado para a análise das intenções de comportamentos
preventivos da saúde.
Fisher, Fisher e Rye (1995), estudando o comportamento
de prevenção à AIDS, acompanharam homossexuais masculinos
e estudantes heterossexuais durante até 2 meses após terem preenchido
um questionário baseado na teoria da ação racional. Os
resultados demonstraram que os comportamentos preventivos foram adequadamente
previstos pelas intenções comportamentais, as quais, por sua vez,
constituíram uma função das atitudes e normas associadas
a tal temática. Foi verificado, ainda, que as atitudes sobre os comportamentos
preventivos em estudo correlacionavam-se com os produtos das crenças
salientes a respeito de tais atos, multiplicadas por suas respectivas, enquanto
as normas subjetivas subjacentes a esses atos também se apresentaram
correlacionadas com, o produto das percepções acerca do suporte
dos referentes salientes a tais atos, multiplicadas pelas motivações
do indivíduo em acatar essas opiniões, o que confirmou, assim,
as predições da teoria.
Em pesquisa sobre
o uso de condom em jovens heterossexuais, Sutton, McVey
e Glanz (1999) entrevistaram 949 ingleses na faixa de 16 a 24 anos, utilizando-se
de questionário elaborado nos moldes propostos pela teoria da ação
racional. Os dados obtidos evidenciaram que: a atitude e a norma subjetiva contribuíram,
em igual peso, para a explicação da intenção de
comportamento, nenhuma das variáveis sócio-demográficas
utilizadas no estudo interferiram nesse processo e a experiência passada
no uso do condom suplantou tanto a atitude quanto a norma na predição
da intenção de usá-lo no futuro.
Na tentativa de sistematizar
o grande acervo empírico já disponível na literatura, no
que diz respeito a investigações conduzidas sobre o uso de condom
na perspectiva da teoria da ação racional, Albarracin
e cols. (2001) conduziram uma revisão meta-analítica de 96 pesquisas
que totalizavam 22.594 participantes. As evidências reunidas permitiram
as seguintes conclusões: a intenção de comportamento correlacionou-se
positiva e significativamente com o comportamento posterior; as atitudes e normas
subjetivas contribuíram para a perdição da intenção
de comportamento e as crenças comportamentais e normativas correlacionaram-se,
respectivamente, com as atitudes e normas subjetivas.
A tendência
internacional de apoio aos pressupostos da teoria da ação racional,
no que tange à área de prevenção em saúde,
foi confirmada por Stockler (2000), em pesquisa recente
sobre a intenção de prevenir a osteoporose, na qual entrevistou
100 mulheres cariocas entre 35 e 67 anos. Os resultados apontaram que as crenças
comportamentais sobre a eficácia do comportamento preventivo e as crenças
normativas, assim como a atitude e a norma subjetiva correlacionavam-se diretamente
e de forma significativa com a intenção de se engajar no comportamento
referido.
Em investigação
que demonstra a aplicabilidade da teoria da ação racional a outras
áreas que não a da saúde, Bell, Harrison
e McLaughlin (2000) estudaram a opinião de 1.622 estudantes universitários
sobre os programas de ação afirmativa, também usando a
teoria da ação racional como referencial. Entre outros achados,
foi observado que o produto das crenças sobre a ação afirmativa
por suas respectivas avaliações demonstrou maior poder em predizer
as atitudes sobre tal fenômeno que as crenças ou as avaliações
tomadas independentemente. Por outro lado, tanto a atitude quanto a norma subjetiva
contribuíram, significativamente e de forma similar, na explicação
da intenção de comportamentos associados à implementação
de programas de ação afirmativa, além de que tal intenção
apresentou-se positiva e fortemente correlacionada com o envio de mensagens
aos congressistas em apoio à ação afirmativa.
A terceira fase na
história do estudo da consistência entre comportamento e atitude
não se identifica com um pesquisador principal, como nas fases anteriores,
mas, ao contrário, associa-se a várias equipes que vêm procurando
desenvolver modelos que possam responder à seguinte pergunta: "como
o comportamento repercute na atitude?" (Channouf
& cols, 1996). Desse modo, enquanto até a segunda fase admitia-se
que o comportamento era determinado pela atitude, a terceira fase será
marcada pelo predomínio de modelos comportamentalistas, fundados na crença
de que a atitude pode ser derivada da ação. "É verdade
que às vezes defendemos o que acreditamos, mas também é
verdade que passamos a acreditar no que defendemos" (Myers,
2000, p.73).
A teoria da autopercepção
proposta por Bem (1972, citado por Myers, 2000) constitui
um exemplo de tal perspectiva, ao pressupor que as atitudes são derivadas
das observações de si mesmo ou do próprio comportamento.
Uma pessoa acredita ter uma atitude a respeito de um determinado assunto por
ter observado, em si mesmo, o que fazia ou o que falava a respeito desse assunto.
Desse modo, se ela fala ou age favoravelmente em relação a determinado
objeto, irá passar a admitir que mantém uma atitude favorável
ao mesmo. Em síntese, a atitude pode constituir-se, também, no
resultado daquilo que a pessoa observou e percebeu de si mesma.
Os modelos em questão
não serão aqui aprofundados, por fugirem aos propósitos
da presente dissertação. De todo modo, a análise da questão
da consistência entre atitude e comportamento revela que, embora tal fenômeno
seja complexo, ainda assim, em certas circunstâncias e especialmente sob
a perspectiva da teoria da ação racional, é possível
prever o comportamento a partir das atitudes, o que denota a pertinência
de investigações futuras capazes de aprofundar ainda mais o estudo
dessa temática, especialmente no que tange a pesquisas sobre o assunto
realizadas por meio da Internet.
II. A Internet e a Psicoterapia Online
2.1. O Indivíduo
e a Internet Voltar
As relações humanas através da Internet, também
denominadas cibernéticas, contêm peculiaridades que as fazem distintas
das demais relações até então conhecidas, como aquelas
propiciadas pelo contato face-a-face, por telefone, por carta, etc. Assim é
que, excetuando-se a videoconferência, que permite a transmissão
parcial da linguagem não verbal, os meios de comunicação
online implicam tão somente o contato por escrito, via e-mail, chat ou
newsgroup.
O e-mail é
a forma mais usada de comunicação na Internet, dispensando assim
apresentações. O chat permite que duas ou mais pessoas se comuniquem
em tempo real, por escrito, como se estivessem ao telefone, enquanto o newsgroup
assemelha-se ao e-mail, embora pressuponha maior difusão da comunicação,
já que toda vez que um integrante do mesmo envia uma mensagem, esta é
recebida por todos os demais integrantes do grupo, que podem responder à
mensagem inicial, assim como observar as respostas dos outros participantes
e enviar suas opiniões quando quiserem.
A comunicação
pela Internet pode ser também caracterizada como sincrônica ou
assincrônica (Suler, 2002). Na primeira modalidade,
duas ou mais pessoas comunicam-se em tempo real (nas salas de chat, na troca
de mensagens instantâneas por meio do ICQ, e nas videoconferências,
por exemplo) e, na segunda, a comunicação é feita em tempos
diferentes, ou seja, as respostas são enviadas com intervalos de horas,
dias ou tempos maiores (no caso dos e-mails e newsgroups).
Tais formas de comunicação
propiciaram uma flexibilização da identidade, isto é, incitaram
as pessoas a criarem fantasias a respeito de si próprias nos contatos
novos, a dizerem o que não eram e o que não tinham e, provavelmente,
o que gostariam de ser ou ter, revelando, assim, um lado que não costuma
surgir nas relações interpessoais presenciais. Com a Internet,
portanto, a possibilidade de permanecer no anonimato tornou a mentira mais freqüente,
levando as pessoas a mentirem inclusive sobre o próprio sexo.
A Internet permitiu,
também, que as pessoas se nivelassem em termos de status sócio-econômico,
já que todos podem criar um site e divulgar suas idéias pessoais,
independentemente de serem um usuário desconhecido ou uma organização
poderosa, muito embora a disponibilidade de recursos possa determinar o grau
de sofisticação do site. Por outro lado, ela propiciou a quebra
dos limites que demarcam as formas tradicionais de relacionamento intergrupal
- nas quais os grupos sociais se reconhecem e se identificam pelas semelhanças
e se repelem pelas diferenças -, já que os meios de contato por
ela viabilizados mostram-se incapazes de revelar semelhanças e diferenças,
fornecendo, ao contrário, uma variedade de opções tão
ampla que torna um ato de mera sorte o encontro de alguém com quem se
tenha afinidades (Suler, 2002).
Em que pesem tais
vantagens, é comum na Internet a interrupção de contato,
especialmente no acesso por via telefônica, o que pode exercer efeitos
negativos no estado emocional e no comportamento dos usuários. Da mesma
forma, acessos mais lentos podem perturbar ou irritar os usuários, desgastando
ou até mesmo impedindo o desenvolvimento de relações interpessoais
adequadas (Suler, 2002).
2.2 A Internet como Ferramenta
de Pesquisa Voltar
Por ser a Internet um meio de comunicação relativamente novo,
sua utilização em pesquisa ainda é também recente,
embora venha se desenvolvendo rapidamente. Os recursos disponíveis na
Internet, que podem ser usados para a pesquisa em psicologia, são o e-mail
e os softwares que permitem a interação do usuário com
a página em que está. Tais ferramentas são amplamente conhecidas
pelos profissionais da área de informática, que podem auxiliar
os psicólogos na elaboração de pesquisas, já que
a simples aplicação de um questionário envolve programação,
tanto para a coleta e ordenação de dados como para a interação
com o usuário. Assim, é preciso que o pesquisador saiba primeiro
o que é possível ser feito com os recursos eletrônicos para
então planejar pesquisas pela Internet, com o apoio dos profissionais
especializados na utilização de tais equipamentos (Gore
& Leuwerke, 2000).
O questionário
de auto-aplicação é o mais adaptável à Internet,
razão pela qual tem sido o instrumento mais usado para esse fim. Assim
é que mesmo os usuários pouco experientes já se depararam
com questionários, tendo possivelmente respondido a alguns deles. Este
fato é relevante no sentido de tranqüilizar um pesquisador que queira
utilizar um questionário, pois ele pode assegurar-se de que os visitantes
não deixarão de participar por desconhecerem o referido instrumento
(Pettit, 1999).
Na Internet, assim
como em qualquer outra forma de pesquisa envolvendo pessoas, são necessários
mecanismos de recrutamento, isto é, de captação dos participantes,
para posterior seleção dos mesmos. Tal recrutamento realiza-se
mediante a divulgação da pesquisa, por meio da página em
que ela se encontra, por intermédio dos mecanismos de busca disponíveis
ou por meio de links em sites afins, como os que tratam de psicologia ou os
pertencentes à universidade na qual a pesquisa será realizada.
Com a chegada do participante
ao site da pesquisa completa-se o recrutamento, seguindo-se a partir daí
a seleção. Até o momento há três tipos de
seleção: a aberta, a específica e a por convite (Nosek,
Banaji & Greenwald, 2002). A seleção (ou acessibilidade) aberta
é um mecanismo passível de falhas porque pode aceitar participantes
desinteressados, que venham a responder inapropriadamente às questões
propostas. Essa situação, no entanto, ocorre também nos
levantamentos feitos com lápis e papel e, assim, este tipo de inconveniente
não é uma exclusividade da Internet.
Na seleção
específica, há mecanismos de restrição de acesso,
como, por exemplo, a requisição de um número de registro
válido no Conselho Regional de Psicologia. Outras
formas de restrição também podem ser adotadas, como, por
exemplo, apresentar um texto e pedir ao visitante que assinale a interpretação
mais correta, o que filtraria as pessoas com boa aptidão na interpretação
de textos. No caso dos sites com grande número de visitantes, a seleção
específica evita o acúmulo de dados desnecessários. Contudo,
a negação de acesso pode, às vezes, estimular a deturpação
de informações, como, por exemplo, quando o acesso baseia-se em
dados demográficos específicos. A seleção por convite
consiste simplesmente em se convidar determinadas pessoas para participarem
da pesquisa mediante identificação, não se aceitando, assim,
indivíduos que fujam aos critérios previamente estabelecidos.
A seleção
das pessoas pode ser também realizada após a sua participação
e antes da análise de dados, o que evita a perda de potenciais participantes.
Assim, por vezes, pode ser melhor deixar que todos os participantes apresentem
seu dados reais e descartar posteriormente aqueles que não preenchem
os critérios do que correr o risco de ter os dados falsificados. Em outras
palavras, os critérios de seleção podem ser inicialmente
omitidos dos participantes (Nosek & cols, 2002).
As pesquisas na Internet
estão sujeitas às mesmas regras éticas requeridas pelas
pesquisas convencionais (Schrum, 1997). Tais pesquisas
apresentam, entretanto, algumas particularidades, como, por exemplo, a questão
da segurança quanto ao anonimato. Caso sejam necessários os dados
pessoais, eles podem ser submetidos à tecnologia da encriptação,
que ainda não foi superada pelos invasores de redes, preservando, assim,
a decodificação de dados capturados. No entanto, em muitas pesquisas
não é necessária a identificação pessoal,
e, consequentemente, nem mesmo a encriptação é necessária,
bastando ao pesquisador verificar se as respostas emitidas pertencem a pessoas
distintas. O número de IP do visitante revela o provedor que ele utiliza,
dado o grande número de provedores existentes pode-se usar esta informação
para individualizar um visitante. É muito pouco provável que duas
pessoas acessem o mesmo site, ao mesmo tempo, do mesmo provedor.
Dentre as vantagens
da Internet como ferramenta de pesquisa está o fato de ela proporcionar
acesso a um número vasto de participantes, que podem ser incluídos
em um estudo com relativa facilidade e com baixo custo operacional, como no
caso de indivíduos de diferentes faixas etárias e sócio-econômicas,
localizados em várias partes do planeta. Populações de
difícil acesso, como os portadores de doenças raras ou gêmeos
monozigóticos, por exemplo, também ficam mais acessíveis
(Pettit, 1999). Por outro lado, as despesas geralmente
envolvidas numa pesquisa, como os gastos com a manutenção de um
local apropriado, equipe treinada e entrada de dados, podem ser dispensados
e substituídos por uma Home Page apropriada (Buchanan
& Smith, 1999).
No Brasil, entretanto,
mais do que em outras nações, a grande barreira de acesso à
Internet é o alto custo do equipamento de informática. Assim,
o viés mais importante na amostragem populacional é a pequena
representação das populações de baixa renda. De
todo modo, atualmente, o governo brasileiro vem procurando facilitar o acesso
da população de baixa renda a recursos computacionais, o que provavelmente
fará com que tal viés diminua nos próximos anos, permitindo
que esta parte da população possa ser também representada
na Internet.
Uma outra vantagem
da pesquisa na Internet está na possibilidade de se criarem softwares
interativos como alternativa aos questionários estáticos de auto-avaliação.
Além disso, o armazenamento em banco de dados facilita tanto a análise
dos dados imediata como a futura (Bartram, 1997).
Entre os problemas
típicos das pesquisas via Internet está o fato de como identificar
se a pessoa que se apresenta corresponde ao que diz ser. Tal comportamento é
comum na Internet, mas ainda não se sabe com que freqüência
ele ocorre nas situações de pesquisa científica. Por outro
lado, a ausência de uma pessoa para esclarecer dúvidas pode fazer
com que as pessoas desistam de participar ou participem da forma errônea.
Oferecer instruções mais detalhadas não resolve perfeitamente
esse problema, porque exige mais dos visitantes, o que pode levá-los
a desistir da participação. Por isso, a explicação
inicial deve conter tudo que for essencial e estar escrita de forma clara (Nosek
& cols, 2002).
O local onde o participante
se encontra também pode interferir no seu desempenho na pesquisa. Assim,
por exemplo, alguém que esteja acessando o site pelo local de trabalho
pode se submeter a interferências indesejadas ou imprevistas, como ruídos,
músicas ou conversas que atrapalhem a concentração do indivíduo.
Por outro lado, outras pessoas podem estar vendo o que esta pessoa está
fazendo e opinar sobre o que ela deve fazer ou escrever. Recomendações
podem ser dadas nesse sentido, mas não é possível saber
se serão seguidas ou não (Nosek & cols.,
2002).
Em resumo, a pesquisa
pela Internet, como todas as outras novidades, apresenta vantagens e desvantagens.
As vantagens, entretanto, são enormes e as desvantagens, até o
momento, não foram prejudiciais a ninguém. Logo, é provável
que essa ferramenta de pesquisa obtenha um considerável desenvolvimento
nos próximos anos. Em outras palavras, as pesquisas psicológicas
na Internet estão engatinhando, mas o interesse que vêm despertando
na comunidade científica leva a crer que elas em breve alcançarão
a maturidade.
2.3 A pesquisa em psicologia
por meio da Internet Voltar
Um dos primeiros aspectos questionados ao se pensar na realização
de estudos científicos pela Internet relaciona-se à equivalência
de resultados obtidos com a aplicação de instrumentos em lápis
e papel e pela Internet ou entre procedimentos experimentais realizados pela
Internet e em contato direto com os participantes. Nesse sentido, alguns estudos
têm se dedicado a comparar os resultados obtidos com a aplicação
de instrumentos e procedimentos em populações equivalentes pela
Internet e pelos meios convencionais.
O estudo de Epstein, Klinkenberg, Wiley e McKinley (2001)
teve por objetivo avaliar a atração interpessoal em 213 estudantes
heterossexuais de graduação, de uma universidade pública
norte-americana. Desse total, 116 preencheram um questionário em papel
e 97, um questionário pela Internet. O questionário era composto
por 40 itens do tipo Likert, variando de 1 a 7 pontos. A análise dos
dados mostrou que os resultados obtidos nos dois grupos eqüivaliam-se quanto
à atração interpessoal, validando, assim, a pesquisa sobre
atração interpessoal pela Internet.
Ball (1993) comparou os escores do Mini Mental State Examination
(MMSE) em onze pacientes recém internados numa clínica psiquiátrica,
sendo que seis eram esquizofrênicos, cinco deprimidos e um portava transtorno
motor. O MMES foi aplicado em todos por duas vezes, com um intervalo de 48 horas:
uma vez em lápis e papel, na presença do avaliador, e, em outra,
através de videoconferência. A ordem de aplicação
foi randomicamente distribuída. A média dos escores foi comparada,
tendo-se verificado que elas não apresentavam diferenças significativas,
isto é, que a aplicação do MMSE na presença do avaliador
foi similar à realizada por meio de videoconferência.
Em outro estudo, também realizado com o objetivo de comparar os questionários
de lápis e papel e os aplicados através da Internet, Joinson
(1999) usou uma amostra de 82 estudantes, com idade média de 22 anos,
os quais foram divididos em quatro grupos, sendo que dois desses grupos responderam
aos questionários nos computadores e os outros dois grupos em formulário
de papel. Além disso, para dois dos grupos foi garantida do anonimato
dos participantes, enquanto para os outros dois foi exigida a identificação
dos participantes. A caracterização final dos grupos ficou então
da seguinte forma: Grupo A- resposta no computador e o anonimato; grupo B- resposta
no computador e identificação; grupo C- resposta no papel e o
anonimato; grupo D- resposta no papel e identificação. Todos os
grupos responderam a um mesmo conjunto de questionários, destinados a
medir a autoconsciência, a auto-estima e o comportamento social, em salas
separadas, para que não pudessem ver que uns faziam o teste em papel
e outros, em computador. Os resultados mostraram que o meio pelo qual as respostas
eram coletadas influenciavam nas respostas. Assim, as pessoas que usaram computador
tenderam a apresentar comportamento social menos adaptado, sendo tal fato mais
evidente no grupo que não precisou se identificar. Os autores concluíram,
então, que a combinação do uso da Internet com a situação
de anonimato fez com que as pessoas adotassem comportamentos menos aceitáveis
socialmente.
Eaton e Struthers (2002), com a finalidade de investigar
a atitude dos funcionários em relação a sua própria
empresa, criaram dois grupos de empregados, sendo que um foi avaliado por questionários
em lápis e papel (N=135) e o outro por questionários aplicados
através da Internet (N=220). Todos os participantes foram convidados
a descrever um incidente negativo envolvendo a empresa em que trabalhavam e
a responder a perguntas sobre como se sentiam em relação à
empresa e como se comportavam quando tais eventos negativos ocorriam. Os padrões
de respostas dos dois grupos foram semelhantes, mas a forma como os empregados
se manifestaram foi diferente, tendo-se identificado maior cinismo e maior severidade
no julgamentos sobre suas respectivas empresas no grupo avaliado pela Internet.
Celio e cols. (2000) compararam um procedimento de prevenção
de transtorno alimentar (que visava reduzir a insatisfação com
a auto-imagem corporal e dessa forma prevenir possíveis problemas alimentares
futuros) aplicado por meio da Internet e em sala de aula. Para isso, setenta
e seis mulheres estudantes de uma universidade privada foram randomicamente
distribuídas em três grupos, sendo que um recebeu as instruções
pela Internet, outro, na sala de aula, enquanto o terceiro ficou numa lista
de espera, servindo como controle. Medidas da imagem corporal, atitudes e comportamentos
em relação à alimentação foram efetuadas
ao início, ao final do tratamento e quatro meses mais tarde. As participantes
dos dois grupos experimentais mostraram resultados equivalentes e superiores
aos do grupo controle, tendo apresentado significativa melhora na relação
peso/forma, além de diminuírem o peso corporal e aumentarem a
satisfação com a forma do próprio corpo. Os autores concluíram,
então, que a intervenção realizada pela Internet contribuiu
de forma significativa para a redução do risco de incidência
de transtornos alimentares.
Com o objetivo de mostrar a viabilidade de se pesquisar pela Internet, Pettit
(1999) construiu um site para coleta de dados por meio de um questionário
de 10 itens que indagavam a respeito das aversões, hostilidades ou medos
do participantes em relação ao computador. O objetivo principal
não era, entretanto, investigar as atitudes relativas aos computadores
ou à Internet, mas mostrar a utilidade desta última como ferramenta
de pesquisa. Para a divulgação, foram usados apenas os próprios
recursos existentes na Internet, como cadastramento nos mecanismos de busca
e links em sites de psicologia e na universidade onde o pesquisador lecionava,
assim como banners. Os indivíduos que acessavam o site eram avisados
de que a participação era voluntária e que não havia
a necessidade de identificar-se. Em contrapartida, o autor se identificava e
oferecia seu e-mail para contato, facilitando com isso a participação.
Como resultado foram obtidos, em 21 dias, 800 questionários respondidos.
O autor concluiu, assim, que a Internet é um meio fácil e rápido
de se coletar dados, além de se mostrar menos sujeito a erros, sendo
portanto viável para a pesquisa em psicologia.
Para além da preocupação em mostrar que a Internet é
um meio confiável para a realização de pesquisas, além
de ser comparável ou até mesmo superior aos meios de pesquisa
convencionais, um outro grupo de estudos tem se voltado para a investigação
de questões substantivas suscitadas pelo advento da Internet.
Nesse sentido, Nicolaci, Daniela & Raphael (2002),
com a finalidade de investigar a forma como crianças e adolescentes lidam
com o computador e com a Internet em seu cotidiano, realizaram um levantamento
com usuários da Internet de ambos os sexos entre 10 e 15 anos de idade.
A coleta de dados inicial realizou-se por meio de gravações de
conversas em ambiente informal com grupos dessa faixa etária. A análise
do conteúdo dessas conversas propiciou a elaboração de
um questionário com perguntas abertas enviado por e-mail a 90 pessoas.
A análise dos 30 questionários devolvidos evidenciou, como um
dos principais resultados, a importante presença do computador na vida
dos participantes, a ponto de eles não entregarem trabalhos escolares
escritos a mão, mas somente impressos. A autora concluiu o estudo afirmando
que essas crianças e adolescentes fazem uso da Internet como algo natural,
e não como uma novidade ou algo sofisticado.
Com o intuito de analisar as novas formas de construção do sujeito
na atualidade, tendo como pano de fundo as relações afetivo-sexuais
virtuais que se estabelecem nas salas de bate-papo da Internet (chat), Pereira
(1999) examinou 140 indivíduos. A avaliação foi feita por
perguntas abertas enviadas por e-mail e os participantes foram recrutados por
convite, nas próprias salas de chat dos sites uol.com.br e zaz.com.br,
ou por e-mail. O autor concluiu que nos chats o sujeito pode ser idêntico
a si mesmo ou experimentar novas identidades a seu critério, além
de poder perceber o ambiente virtual como distinto do real ou como uma continuação
da realidade.
Bevilaqua (2000) estudou as novas formas de ciúme
e traição que surgiram com a Internet, isto é, investigou
se os usuários de chat percebiam seus relacionamentos afetivos-sexuais
"virtuais" como infidelidade e se esta percepção dependia
do sexo. Foram analisadas 50 entrevistas (25 para cada sexo) de freqüentadores
de chats, tendo-se verificado que, para os homens, as relações
afetivo-sexuais virtuais não constituíam infidelidade, uma vez
que não envolviam contato físico. Já para as mulheres,
o flerte pela Internet caracterizava-se como infidelidade, porque envolvia pensamentos,
palavras e obras. A autora concluiu, assim, pela existência de uma disparidade
na percepção quanto à fidelidade, no que tange às
relações virtuais.
Leon,
Rotunda, Sutton e Schlossman (2003) investigaram a atração interpessoal
pelo sexo oposto através da Internet, em estudantes universitários
(100 mulheres e 94 homens) com idade média de 28 anos. Ao início
do experimento, todos preencheram o Interpersonal Trust Scale, que mede o grau
de confiança nas relações interpessoais. Em seguida, os
participantes foram divididos em dois grupos, sendo que um recebeu uma mensagem
que os alertava sobre as facilidades de se conhecer pessoas pela Internet, bem
como sobre os potenciais perigos oferecidos por pessoas que mentem ou exageram
a seu próprio respeito, enquanto o outro grupo não recebeu nenhuma
mensagem. Posteriormente, todos receberam uma foto de um jovem do sexo oposto
ao seu próprio, com uma breve apresentação do mesmo, sendo-lhes
perguntado se desejavam conhecer e marcar um encontro com esta pessoa. Os participantes
que não receberam a mensagem mostraram-se significativamente mais propensos
a encontrar a pessoa da foto do que as pessoas que receberam a mensagem de alerta.
Além disso, os homens se mostraram mais desejosos em conhecer uma pessoa
do sexo oposto do que as mulheres. Os autores concluíram que as mensagens
de alerta veiculadas pela Internet são consideradas pelos usuários,
isto é, são capazes de levá-los a mudanças de comportamento.
Os estudos aqui revistos
revelam que o desenvolvimento da Internet está sendo acompanhado de perto
pelos psicólogos, que vêm paulatinamente desvendando suas vantagens,
desvantagens, falhas e facilidades. Até o momento, no entanto, as suas
vantagens enquanto ferramenta de pesquisa parecem superar as desvantagens. Desse
modo, é provável que em futuro próximo seja observado um
significativo crescimento das pesquisas online no campo da psicologia.
2.4 A Psicoterapia Online
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A terapia online não se propõe a ser uma nova modalidade de psicoterapia,
mas um novo meio de realizá-la. Nesse sentido, Kaplan
(1997) afirma que ela consiste em um tipo de terapia na qual o terapeuta encontra-se
em um local diferente daquele em que o paciente está, sendo portanto
viabilizada pela comunicação bidirecional que se realiza em tempo
real, por áudio, audiovisual ou texto, além de poder se efetivar
por meios assíncronos, como o e-mail, fitas K-7 e vídeo.
Um terapeuta online
assemelha-se, assim, a um terapeuta cego que, por não contar com os recursos
visuais, direciona sua atenção para a forma e o conteúdo
das mensagens que chegam até ele, obtendo também informações
"não verbais" através dos textos. A experiência
e o conhecimento individual que ele vai adquirindo de seus clientes acabam por
permitir a apreensão de outras modalidades de informações
que muitas vezes não são percebidas no contato pessoal, como o
estilo de escrita, por exemplo. Assim, a transposição da relação
face-a-face para o mundo virtual não representa uma perda completa, mas
tão somente a substituição da forma de avaliação
da linguagem não verbal, já que esta deixa de ser avaliada pela
expressividade corporal e passa a ser avaliada pela expressividade estilística
da escrita.
Por outro lado, o
fato de a Internet permitir a comunicação à longa distância
por um baixo custo implica que uma pessoa, submetendo-se à terapia online,
poderá mudar de país e mesmo assim continuar realizando a terapia
com o profissional do pais de origem, sem grandes dificuldades. Dito de outra
forma, a psicoterapia online permite a transcendência no espaço.
A flexibilidade temporal
viabilizada pela Internet é outro importante aspecto a ser considerado
na psicoterapia online, na medida em que, na comunicação assincrônica,
o estado emocional da pessoa, ao receber as respostas, é diferente do
estado emocional em que ela se encontrava na hora em que enviou as mensagens,
o que pode ser vantajoso ou não para a prática psicoterápica.
Assim, por exemplo, um paciente pode ser levado a constatar que sua conduta
foi inapropriada ou imatura, após o tempo em que é forçado
a esperar, mas, por outro lado, pode ficar frustrado ao precisar de uma resposta
imediata que ele não é capaz de conseguir, chegando esta apenas
quando já for tarde demais. Por fim, a possibilidade de gravação
das mensagens constitui outra vantagem da psicoterapia online em relação
à terapia convencional, por permitir a releitura de mensagens e diálogos
passados.
A psicoterapia online,
assim como qualquer relação via Internet, pode se dar na forma
sincrônica e assincrônica, conforme anteriormente mencionado (Suler,
2002). A primeira modalidade, por envolver uma comunicação em
tempo real, pressupõe a marcação de um horário limitado
para atendimento, como num consultório, o que facilita a organização
dos atendimentos e implica a submissão do paciente a esta regra. Ela
permite, assim, que se crie a sensação de que o terapeuta, apesar
de não se encontrar visível, está, naquele momento, presente
e disponível exclusivamente para o cliente. Tal forma de psicoterapia
caracteriza-se, ainda, por promover maior espontaneidade por parte do cliente,
especialmente no que diz respeito à revelação de idéias
censuradas e à emissão de relatos difíceis ou embaraçosos
de serem feitos, motivados em grande parte pela não presença do
terapeuta.
Por outro lado, na psicoterapia online sincrônica torna-se por vezes difícil
estabelecer horários adequados para ambas as partes, principalmente quando
elas moram em locais de fusos horários muito distintos. Além disso,
o tempo de comunicação do terapeuta fica reduzido, na medida em
que ele necessita utilizar a escrita, que é naturalmente mais demorada
do que a fala utilizada na comunicação presencial. Por fim, o
tipo de acesso usado pode provocar atrasos no recebimento das mensagens, prejudicando
algumas das sessões ou mesmo a terapia como um todo, embora os acessos
dedicados possam abrandar esse problema (Suler, 2002).
Na terapia assincrônica,
o terapeuta e o cliente não precisam estar se comunicando simultaneamente,
o que faz com que a percepção temporal desapareça, já
que o cliente passa a se ver como se estivesse constantemente sob terapia, podendo
manifestar-se na hora em que os acontecimentos se dão ou na hora que
lhe for mais adequada, sem ter de esperar a hora da sessão. Isto vale
também para o terapeuta, que conta com uma ampla margem de tempo para
pensar ou até pesquisar a resposta a ser dada a seu cliente. Ela não
sofre, portanto, influências dos fusos horários, além de
propiciar o armazenamento de todas as mensagens trocadas, permitindo, assim,
uma análise detalhada e fidedigna do passado (Suler,
2002).
Contudo, por não
ter limites temporais, o terapeuta pode acabar se envolvendo muitas horas por
semana com os pacientes que apresentam uma demanda intensa, como os ansiosos.
Já o cliente pode não se sentir em tratamento, em função
de a terapia não ter um horário definido, prejudicando assim,
o rendimento terapêutico. A espontaneidade do relacionamento, por outro
lado, fica afetada, já que as mensagens podem ser mais estudadas, assim
como o senso de compromisso, uma vez que a não existência de um
horário determinado pode fazer com que as mensagens sejam relegadas "à
hora que der tempo", reduzindo, deste modo, o tempo total de terapia. Por
fim, tal modalidade de psicoterapia online implica a perda das possíveis
informações obtidas com atrasos ou faltas, no casos em que há
uma hora marcada.
A forma assincrônica
de psicoterapia online tem sido a mais utilizada e tem ocorrido principalmente
por e-mail, em virtude do mesmo constituir-se em um meio mais simples e fácil,
apesar de contar somente com textos para a comunicação. A realização
de terapia através de salas de chat ou de videoconferência requer
um conhecimento maior sobre o uso dos recursos tecnológicos, além
de exigir, também, acessos mais potentes em termos de velocidade e amplitude
de banda mais larga (Suler, 2002).
Em que pesem as vantagens
da psicoterapia online, entretanto, torna-se necessária a consideração
de uma série de aspectos que permeiam a implementação de
tais práticas e que precisam ser aprofundados, antes que a adoção
das mesmas em larga escala se torne lugar comum. Uma das primeiras questões
e quiçá a mais importante a ser discutida diz respeito ao aspecto
ético. Em princípio, toda e qualquer prática psicoterápica
exercida sem embasamento científico ou implementada por pessoas incompetentes
no assunto é considerada antiética, o que torna necessária
a supervisão de um conselho de ética que possa coibir tais práticas.
Uma outra questão
que merece ser considerada diz respeito à troca de pessoas. Será
que a pessoa que está atendendo de forma síncrona ou assíncrona
é de fato o terapeuta? Será que o cliente é o mesmo? Tais
perguntas são difíceis de serem solucionadas sem a videoconferência,
já que até mesmo a identificação biométrica
(como, por exemplo, a impressão digital, de voz ou da íris) pode
ser usada pela pessoa autorizada sem que ela própria permaneça
no diálogo.
Por outro lado, que
regras devem ser adotadas para se autorizar um psicoterapeuta a praticar a psicoterapia
online? Autorizá-lo desde já significaria assumir que a terapia
online equivale à terapia presencial. Contudo, impedir que isso seja
feito significa dificultar o acesso à terapia de pessoas que dela necessitam
para o restabelecimento de sua saúde mental, como, por exemplo, aquelas
que moram em locais onde não há psicólogos ou que não
possuem meios de se locomoverem até o consultório de seus terapeutas.
O que seria mais antiético, então: impedir que os profissionais
realizem desde já a psicoterapia cibernética por falta de embasamento
científico ou privar as pessoas que necessitam de apoio psicológico
de serem a ela submetidas? (Suler, 2002)
Por fim, uma questão
ética que atinge não apenas a terapia online mas todo o sistema
econômico: que legislação incide sobre os usuários
da terapia online. Para o mundo virtual, um cliente brasileiro, residente nos
EUA, que faça terapia com um psicólogo de dupla nacionalidade
(alemã e norte-americana) que resida na França e utilize um servidor
no Japão não constitui nenhum absurdo. Mas para o mundo legal,
quais seriam as leis válidas? No caso de imperícia, imprudência
ou negligência, qual seria o sistema legal a ser usado?
Em síntese,
a psicoterapia online possui certas peculiaridades que a fazem diferente das
demais práticas já existentes e aprovadas, o que não implica
que ela deva por isso ser antecipadamente condenada mas, ao contrário,
torna patente a necessidade de um aprofundamento dos estudos a este respeito,
que possam dar respaldo científico a tais procedimentos e dirimir as
dúvidas que ainda existem a respeito de sua implementação.
No Brasil a terapia online ainda é proibida, estando autorizada apenas
para estudos científicos, desde que o protocolo de pesquisa tenha sido
antes aprovado pelo Conselho Nacional de Saúde, razão pela qual
ela não pode ser exercida sob cobrança de honorários, além
de que o usuário deve estar previamente ciente de que ele estará
apenas participando de uma pesquisa (Conselho Federal de Psicologia, 2000).
2.5. A Pesquisa sobre a
Psicoterapia Online Voltar
Apesar de a psicoterapia online constituir prática recente, já
é possível encontrar na literatura algumas investigações
sobre a eficácia de tal modalidade psicoterápica. Nesse sentido,
Tate, Wing e Winett (2001) conduziram um estudo com o objetivo
de verificar a eficácia da terapia comportamental via Internet na perda
de peso. Foram aceitos inicialmente 99 voluntários saudáveis,
com idades entre 18 e 60 anos e com um índice de massa corporal entre
25 e 36 Kg/m2, sendo que apenas 65 completaram o estudo, que durou 6 meses.
Os participantes foram randomicamente distribuídos em dois grupos: o
grupo controle recebeu instruções educativas para perda de peso,
enquanto o grupo experimental foi submetido à terapia comportamental
pela Internet. Os pesos corporais e as circunferências abdominais foram
comparadas no início, aos 3 e 6 meses de acompanhamento, com a primeira
medida sendo feita em um encontro face-a-face e as demais, transmitidas pela
Internet. Os resultados mostraram que os participantes do grupo experimental
apresentaram redução significativa de peso, em comparação
ao grupo submetido à educação alimentar.
Anderson, Stromgren, Strom e Lyttkens (2002) procuraram tratar, através
da terapia cognitivo-comportamental via Internet, pessoas fortemente incomodadas
por zumbidos. Os participantes foram recrutados por sites e artigos de jornais,
totalizando 117 pessoas divididas em dois grupos randomizados: o grupo de controle
foi formado por pessoas que preenchiam os questionários de avaliação
numa lista de espera e o experimental, por pessoas que efetivamente se submeteram
à terapia cognitivo-comportamental por um ano. O zumbido não foi
eliminado, mas o incômodo por ele provocado diminuiu em aproximadamente
50%, nas pessoas tratadas. Os autores concluíram então que o tratamento
cognitivo-comportamental pela Internet mostrou-se eficaz no controle do aborrecimento
causado pelo zumbido.
Lange, Ven, Schrieken e Emmelkamp (2001) formaram dois
grupos de estudantes que apresentavam estresse pós-traumático,
tendo submetido um dos grupos (experimental) ao protocolo de tratamento Interapy,
que inclui triagem, psico-educação e tratamento pela Internet,
por 6 semanas, enquanto o grupo de controle foi mantido em uma lista de espera.
Ao início e ao final do tratamento, ambos os grupos foram avaliados por
meio dos seguintes instrumentos: Symptom Checklist (SCL-90), Somatoform Dissociation
Questionnaire (SDQ-5), Impact of Events Scale (IES) e Profile of Mood State
(POMS). A análise dos resultados evidenciou que mais de 80% dos participantes
do grupo experimental obtiveram uma melhora significativa nos sintomas relativos
ao estresse pós-traumático, bem como nos sintomas psicopatológicos
gerais, em comparação ao grupo de controle.
Christiensen, Griffiths e Korten (2002) desenvolveram
uma intervenção terapêutica gratuita de base cognitivo-comportamental
na Internet (http://moodgym.anu.edu.au), planejada especialmente para tratar
e prevenir depressão em jovens. A eficácia da intervenção
foi testada durante seis meses, tendo 2.909 pessoas se inscrito e 1.503 completado
a avaliação. Os participantes responderam a uma escala de avaliação
de ansiedade e outra de depressão, as quais foram aplicadas no início
do processo e por mais outras cinco vezes. Ao final dos seis meses de estudo
constatou-se uma redução significativa nos escores de depressão
e de ansiedade ao longo do tratamento, o que levou os autores a concluirem que
a Internet é um meio promissor para o tratamento preventivo da depressão,
com base na terapia cognitivo-comportamental.
Cook
e Doyle (2002) realizaram uma pesquisa para verificar se a aliança estabelecida
entre cliente e terapeuta através da Internet era equivalente à
estabelecida na terapia presencial. A avaliação do vínculo
foi feita através de um inventário especificamente desenvolvido
para avaliar a aliança entre cliente e terapeuta. A análise dos
resultados revelou que não foram encontradas diferenças nas médias
dos dois grupos, numa indicação de que a aliança na terapia
online pode ser construída com a mesma qualidade em que ela ocorre na
terapia convencional, já que por ambos os meios, os clientes conseguiam
transmitir suas queixas e problemas, tendo-se notado inclusive uma desinibição
ligeiramente maior do participantes pela Internet.
Os estudos aqui revistos,
ainda que em baixo número, denotam que a terapia cibernética já
constitui uma realidade em alguns países, além de vir despertando
o interesse crescente de pesquisadores desejosos de comprovarem seus efeitos
positivos e negativos, bem como contribuírem para a coleta de evidências
acerca de sua validade e confiabilidade. No entanto, é possível
notar, também, que todos eles, sem exceção, fizeram uso
da abordagem cognitivo-comportamental, o que pode ser interpretado como um indício
de que, até o momento, apenas esse tipo de abordagem apresenta características
apropriadas à realização da psicoterapia online.
III. Discussão da
Literatura e Formulação dos Objetivos da Pesquisa
Voltar
A revisão dos
estudos voltados para a análise da questão da consistência
entre atitude e comportamento evidencia que nem sempre o que é manifestado
verbalmente corresponde ao que é feito na prática, ou seja, nem
sempre se faz o que se fala, o que equivale a dizer que a atitude, como parâmetro
isolado, não tem se mostrado um fator fidedigno de previsão do
comportamento, conforme demonstrou claramente o estudo de La Piere (Lima, 1993),
no princípio do século passado. Contudo, a introdução
da teoria da ação racional (Fishbein &
Ajzen, 1975) na literatura psicológica reacendeu o debate a respeito
dessa temática, ao utilizar conceitos que implicavam em novas possibilidades
de se prever e explicar o comportamento humano. Nesse sentido, a referida teoria
procura explicar a relação entre a intenção de comportamento
e o comportamento propriamente dito, a partir das atitudes em relação
ao objeto, das influências externas e dos valores e crenças mantidas
em relação àquele objeto.
Até o estudo
de LaPiere, então, tentava-se relacionar a atitude ao comportamento.
A partir da introdução da teoria da ação racional,
entretanto, a atitude deixou de ser a única variável a prever
o comportamento, na medida em que outras variáveis, tais como as crenças
comportamentais, a avaliação das crenças, as crenças
normativas e a motivação para aderir a essas crenças, passaram
também a figurar como elementos importantes nessa predição.
Com essas mudanças, tornou-se possível buscar relações
mais precisas entre cada uma das partes que compõem a teoria da ação
racional e a intenção de comportamento ou o comportamento observável.
Assim é que, fundamentando-se nessa perspectiva teórica, vários
trabalhos recentes têm comprovado a relação entre os diversos
componentes da teoria e diferentes intenções de comportamento,
associadas, por exemplo, à prevenção da AIDS (Fisher
& cols., 1995), ao uso de condom (Albarracin &
cols., 2001; Sutton & cols. 1999), à prevenção
da osteoporose (Stockler, 2000) e ao apoio a programas
de ação afirmativa. Em síntese, a teoria da ação
racional dotou os estudiosos das atitudes com um modelo capaz de predizer intenções
e/ou comportamentos específicos a partir da combinação
de atitudes com outros elementos a elas contingentes comportamentos (crenças
e normas subjetivas), o que não era possível nos estudos desenvolvidos
na tradição de La Piere, em função de que eles procuravam
associar atitudes gerais a comportamentos gerais.
Uma outra linha recente
de investigações, que vem galgando, progressivamente, posição
de destaque nas publicações especializadas, diz respeito às
possibilidades de utilização da Internet como ferramenta de pesquisa,
conforme pode ser verificado nos trabalhos de Bartram
(1997), Nosek e cols (2002), Pettit
(1999) e Schrum (1997). Associadas ao advento da Internet,
as discussões acerca da psicoterapia online também têm se
intensificado. Assim é que o referido tema vem sendo debatido em congressos
de psicologia, em grupos de profissionais e nos conselhos regionais e federal
de psicologia. Não foram, porém, encontradas na literatura, investigações
voltadas para o teste direto das atitudes sobre a psicoterapia online, especialmente
no que tange a pesquisas orientadas pela perspectiva da teoria da ação
racional. Contudo, o conhecimento das crenças e atitudes a respeito dessa
temática poderá trazer importantes subsídios aos defensores
de tal prática, que desejam vê-la aprovada e regulamentada.
Tomando por base essas
considerações, o presente trabalho pretendeu investigar a congruência
entre a atitude das pessoas a respeito da psicoterapia online e a intenção
de aprovar a regulamentação dessa forma de terapia, utilizando
a Internet como ferramenta de pesquisa. Nesse sentido, orientou-se pelos seguintes
objetivos:
3.1. Verificar o poder preditivo das crenças comportamentais sobre a terapia online, da avaliação dessas crenças e do produto dessas crenças por suas avaliações, nas atitudes sobre a terapia online.
3.2. Verificar o poder preditivo das crenças normativas sobre a terapia online, da motivação para aderir a essas crenças e do produto dessas crenças normativas pelas motivações, na norma subjetiva associada à terapia online.
3.3. Verificar o poder preditivo das atitudes sobre a terapia online e da norma subjetiva, na intenção de aprovar a regulamentação de tal prática.
IV. HIPÓTESES Voltar
Para atender a tais objetivos